Capítulo 12 - Música


Uma nova rotina.
A frase tão importuna e assustadora pertubava minha alma cada vez em que eu caminhava de volta para casa, ou a silhueta que, pessoalmente era perfeita, prosseguia seu caminho de volta a seu lar.
Dois mundos complexos e completamente intrigantes em seu conflito eterno eram presenciados em uma transição louca, nesse pequeno período. Neste curto espaço de tempo, sair da casa de minha nova namorada e retornar à minha.
O primeiro mundo era no qual eu desejava me acostumar eternamente, sobre a dor e a nostalgia. Onde o céu acompanhava a mudança de meu humor, e que ele poderia acabar em aguaceiro, novamente junto às emoções que vinham à tona, despejando lágrimas de meus olhos. Os pingos da chuva intensa, que foram ampliadas a partir de meu choro com motivos sem sentido concreto.
O segundo mundo, o mais novo, o qual descobri recentemente era composto por ilusões, era certo. No entanto, os dois mundos eram feitos de ilusões, apenas miragens. Mas o novo sonho era tão atrativo e irresistível que era impossível haver uma escolha entre os dois, uma mínima competição. Eu sabia, na consciência ou de modo desacordado que, neste mundo, não passavam de simples acontecimentos que moveram-se como uma máscara sobre meu rosto, escondendo-me do mundo, dos fatos a minha volta.
Mas era sem possibilidades de desistir do primeiro mundo e optar pelo sensacional, como já dito.
Eu provava as novas ilusões com o sabor e a textura doce, extremamente agradáveis, sempre que avistava o corpo de minha nova amada. A principal arma, o principal remédio que compunha este mundo no qual eu gostaria de viver até o resto de meus últimos dias, era seu resplandecente sorriso. Poder aproveitar da brancura de seus dentes e do sentimento que aquele gesto carregava era um tanto... anestésico.
Um tipo de torpor que era bom, não como todos os outros que já senti.
Então, sempre que eu ultrapassava o limite que separava estes dois mundos, eu era infeliz.
Contava os minutos no círculo branco que contrastava com o preto de fundo, meu relógio de pulso. Vinte quatro horas, e eu permanecia ali, fitando sem ver o horizonte, de minuto em minuto observando o aparelho em meu pulso esquerdo.
Fora assim até hoje, durante vinte e sete dias. Mais três dias, e eu poderia gritar ao mundo, para quem tivesse tempo de ouvir: "Faz um mês que sou feliz!"
Não totalmente, mas quem se importa?
— Quero ver você tocar — dei um fim em meu devaneio, pedindo para ouvir as poucas, porém maravilhosas composições de minha melhor amiga.
Melhor amiga. Era como passei a chamar por Bruna, desde o dia do aeroporto.
— Vamos lá — sua mão agarrou a minha, puxando para o primeiro andar do castelo dos Giordano Fehera.
Ela sentou-se ao meu lado, na banqueta confortável de madeira à frente do enorme piano preto de cauda. Os dedos pressionaram-se uns aos outros, promovendo barulhos seguidos de estalos.
Um último e profundo suspiro, e a melodia alta e clara inundou a enorme sala.
Seus dedos finos e claros com a luz vinda do lado de fora dos vidros, nas paredes, passeavam com leveza sobre o marfim das teclas. Impossível seria dizer que apenas um par de mãos tocava o instrumento, ligando as notas e formando uma música linda. Primeiro, vagarosamente, semelhante à uma canção suave de ninar. Bruna acompanhava seus dedos com o prata de seus olhos, mas a expressão despreocupada, pois ela nunca erraria uma nota.
Aos poucos, a velocidade e a destreza dominaram suas pequenas mãos, articulando seus dedos, transformando-as em um único vulto. A música misturava-se a uma composição familiar, a minha preferida. E, entrelaçada ao som das teclas, a voz dela fazia uma harmonia absolutamente perfeita. O timbre emanava o ambiente, circulava sobre o apartamento vazio, as empregadas parando seus afazeres para tirar proveito daquele composto. Ambas paradas, encostadas no arco de vidro da sala de jantar.
Meu papel ali era pouco importante: eu apenas a observava, o rosto corando. Ao seu lado, eu me sentia um lixo.
A doçura então estava para terminar; Bruna havia colocado delicadeza e lentidão em suas mãos. Os últimos apertos nas teclas, e o silêncio preencheu o momento.
Logo em seguida, o barulho das palmas de dois pares de mãos ecoaram, Bruna virou-se e sorriu para suas duas empregadas. Bati minhas mãos também, sorrindo.
— Quer tentar? — seu sorriso murchou meu rosto, tirando meu fôlego.
— Não sei se...
— Ora, vamos! — suas mãos agarraram as minhas, uma cena cômica. Pequenas e aparentemente frágeis, apertaram as minhas patas de urso e posicionaram, seus dedos colados nos meus, cada mão em um conjunto de teclas. Seu rosto estava em cima de mim, os braços nos meus. Ela estava de pé, atrás de mim.
Aos poucos, ela apertava cada tecla, formando uma música simples, nada comparado às suas composições. Logo, ela criava intimidade com minhas mãos, já debruçada sobre minhas costas.
Tentei firmemente me concentrar quando a pequena elevação de seus seios roçaram o pano de sua camisa em minha nuca.
Porém, logo identifiquei a melodia.
— Argh, Bruna! — larguei as teclas e as suas mãos, apoiando minha cabeça sobre os braços, escondendo-me, enquanto ela ria freneticamente. Em um movimento rápido, senti que ela voltara a sentar do meu lado, continuando a música, torturando meus pensamentos.
— Não me lembre mais disto! — meu grito saía abafado.
Bruna articulava seus dedos na música "Parabéns a você", ainda rindo. Quando terminou, me abraçou e disse baixinho:
— Não se preocupe, por favor. Treze anos não são feitos todos os dias.
— Nenhuma idade é feita todos os dias — falei friamente.
— Quanta raiva! Fiz festas todos os anos de minha vida, por que você não quer?
— Preciso repetir? — levantei a cabeça subitamente, uma péssima idéia. Bruna estava com o rosto tão próximo ao meu, e com o impacto de meu movimento, ela rapidamente afastou-se, largando meus braços.
Tentei parecer indiferente. Ela porém, arfava um pouco. Observei seu rosto por alguns segundos, me divertindo enquanto ela pestanejava e parecia dizer algo.
— D-desculpe — gaguejou, a maçã de seu rosto bem vermelha, que estava virado para o piano.
— Pelo quê? — indiferente até demais, deixei-a até sem graça, mais do que já estava.
Ela me encarou, balançou a cabeça negativamente.
— Nada.
Levantei, fui até a janela ao fundo do piano. Bruna ria sem graça.
— Bruna — passei o dedo pelo vapor que havia na janela, criando um risco. Isso possibilitou que eu observasse os pingos do outro lado do vidro, caindo lentamente.
— Oi? — e ela ainda arfava.
— Já imaginou que, amanhã, será a Mariana a vítima do "com quem será"?
Eu indaguei tão despreocupado, ou talvez um pouco. Estava pensativo, pedi a minha mãe que não fizesse um aniversário. Como foi um pedido sem chances de ser atendido, pude imaginar minha mãe, neste exato momento, preparando a comida para amanhã.
Mas Bruna parara de arfar, quando fitei seu rosto, ele estava paralisado. A boca semiaberta, os olhos grandes.
— Desculpa! Eu não queria falar isso! — corri para seu lado, por impulso tentando lhe dar um abraço. Bruna interrompeu-me com suas mãos.
— Não, está tudo bem. E eu já tinha pensando nisto, sim — sua voz agora estava distante.
— Desculpa. Mesmo. — consegui abraçá-la e esfreguei seu braço amistosamente, como um consolo, enquanto ela me lançava um olhar doce, elevando um canto da boca volumosa.
Meu ritmo diminuiu enquanto ela me levava para minhas fantasias, onde minha imaginação comandava tudo, em meu paraíso particular. Nosso olhar se encontrou, sua boca sumiu com o pequeno sorriso. Parei de criar atrito com seu braço, consegui sentir ambos corações, palpitando em um padrão veloz e forte. Meu rosto aproximou do seu involuntariamente.
— Você está fazendo isso novamente — o hálito quente e levemente doce encostou em minha pele. Acordei do transe.
— O quê? — eu me afastei.
Mas ela não respondera de novo, apenas riu.
— Toca de novo — pedi.
Um sorriso leve aprofundou-se nos lábios de Bruna. Ela virou o corpo para o piano e recomeçou a me surpreender.
Agora, os dedos fervilhavam sobre as teclas de cor alva, incrivelmente polidas. Uma mão trabalhava no conjunto de tom grave, apertando duas ou mais teclas ao mesmo tempo, sempre alternando. A outra mão caminhava com seus dedos pela parte de som agudo, aleatoriamente. A olho nu, poderíamos dizer que era apenas passar as mãos, apertando quaisquer tecla. Ledo engano. A melodia era tão perfeita e bem composta, creio que até um gênio da música poderia intimidar-se ao ver o talento de minha melhor amiga.
Melhor amiga, que eu não tinha tanta certeza se ainda amava.
Eu sabia que algumas poucas semanas não fariam absolutamente nenhuma diferença em meu sentimento, mas com Mariana jogando, era um caso totalmente diferente. Quando eu a encontrava, Bruna era esquecida por completo, como se nunca havia existido. Bruna e qualquer outra pessoa. No entanto, em situações, antigamente rotineiras, como a de hoje, era um tanto incômodas. Bruna cutucava dolorsamente a ferida que estava prestes a se curar a cada dia. Mariana e Bruna conflitavam sem se falar, em uma espécie de briga com meu coração. A ferida que completaria treze anos daqui a quatro meses — em novembro, quando Bruna nasceu, e eu a conheci, mesmo sem poder falar — estava sendo suturada todos os dias com Mariana, mas também alargava-se com Bruna.
Foi então que eu comecei a lutar para aprender uma coisa importante. Todos os dias, em minha mente este aprendizado já era claro, quando eu estava com Mariana. Porém, ao visitar Bruna, ela transmitia uma mensagem por telepatia, de que eu não aprendera nada.
Eu gostaria de aprender que não namorava Mariana por uma causa egoísta, como tentar esquecer Bruna. Não a namorava com o propósito de amenizar a dor existente ali, que sempre era tão intensa e torturante a cada desejo meu de tocá-la de outro modo, de beijá-la até arrancar seu fôlego, de fazer dela minha namorada, de dizer "Eu te amo" da forma em que eu realmente a amo, e não como uma amizade duradoura.
Eu tentava aprender que Mariana aceitara namorar comigo para eu realmente amá-la e fazer dela a garota mais feliz do mundo. Não a usaria com fins apenas voltados para mim. Eu a faria feliz, e seria também.
Eu a amaria.
— Acorda — um estalo de sua mão sobre meus olhos me fizeram despertar. Pestanejei, logo depois lhe encarando. — Você anda muito pensativo. Vou para de tocar. — suas pernas já estava para fora, ameaçando se levantar.
— Não! — pus a mão em sua cintura, com a finalidade de impedir que ela saísse dali. Mas fora inútil.
— Vamos na varanda, vamos pensar em paz — ela puxou minhas mãos, e lançava um olhar feio em direção à sala de jantar, onde as empregadas conversavam, com uma empolgação anormal.
O símbolo estampado naquele cômodo ao ar livre, no primeiro andar do apartamento mesmo, era de conforto, e nada mais. Os móveis de vime com assentos brancos contrastavam com as almofadas de cores azuis, em tom escuro. Eram baixos e amplos. A decoração era de flores finas, e ao lado direito, uma mesa de jantar fazia parte de vários churrascos nos fins de semana. Bruna apertou um botão que ficava no beiral da cerca de concreto, e os vidros laterais fecharam-se automaticamente, deixando apenas os vidros da frente abertos. Sem largar minha mão, me fez sentar ao seu lado, enquanto agarrava uma almofada, levando-a para seu colo.
Apoiou a cabeça em meu ombro, e não pude me controlar para não contornar seu ombro com meu braço, abraçando-a confortavelmente. Observei atentamente seus olhos, que assistiam o céu desaguar, porém com um azul não tão triste. O céu não estava cinza, estava azul.
O silêncio, a não ser pela chuva densa que caía em linha reta, era pela primeira vez, bom. Uma paz indescritível tomava conta daquela varanda, e eu tinha certeza que faria eu pensar naquilo, antes de dormir.
— Pode ser que eu não demonstre isto, mas ainda me fere muito. — sua voz não ultrapassava um sussurro rouco, mas ainda sim estava calma. Tive vontade de dizer para não falar de sua dor, mas seria egoísmo. Eu também queria falar da minha dor.
— Dói... a mim, também. Você não sabe o quanto — tentei dizer, em uma voz baixa também, agoniada. Bruna virou a cabeça rapidamente para mim.
— Como... como assim?
Suspirei fundo, depois de uma última olhada no fundo líquido de seus olhos.
— Desde o dia em que te contei — minha voz era monótona e casual — sobre ela, desde aquele dia em que você desabou... se acabou em lágrimas, não consigo mais ser totalmente feliz, Bruna. — na verdade eu nunca fora — Há uma ferida em mim... não consigo consertá-la.
Silêncio. Uma pausa entrecortada por ruídos do vento se debatendo contra o vidro e do ronronar da gata Kate, que roçava-se em minha perna.
— Ela está ali para lhe ajudar, agora — sua voz era tão baixa que quase não ouvi. Uma ventania ultrapassou a frente da varanda, balançando as flores e nossos cabelos.
— Ninguém pode fazer isto, Bruna.
Seus olhos me contemplaram com dor, acima de tudo.
— Não vou parar de sofrer até ver você feliz novamente — beijei sua testa, apertando-a mais. Ela parecia uma boneca frágil e pequena em meus braços, pedindo abrigo neles.
A chuva aumentara, raios eram vistos no céu, agora mais cinza. Os pingos não paravam de cair, precipitando sem preguiça.
— Só vou parar de sofrer quando ter você novamente, só para mim — senti uma pequena poça em minha camiseta, não havia percebido que ela começava a chorar, de novo. Não bastava o quanto ela já molhara minhas roupas?
— Pare. — pedi, secando as lágrimas, que agora fluíam fortes e rapidamente. — Se não parar, irei embora.
— Não — enxugou os pingos de seu rosto com as costas da mão, fungando freneticamente. Não a abracei novamente, por medo dela iniciar uma nova sessão de choro.
— Vamos mudar de assunto. Como vai o teatro?
Bruna então, controlou suas lágrimas e começou a contar, animando-se aos poucos, sobre o curso quase profissionalizante de sua principal paixão. Contava das atividades, das peças, de tudo. Eu ouvia, atentamente, com medo de um momento como aquele ser esquecido, amanhã, ao ver minha namorada.



Eu ainda estava agradecendo pelo presente de Mariana, enquanto ouvia Bruna, do outro lado do quarto, onde eu não podia vê-la, brincando com Mike. Lílite fazia companhia para Bruna, que de vez em quanto, desviava o olhar para onde quer que Mariana e eu estivéssemos.
Eu também. Sempre que Bruna vinha perguntar algo — não trocamos palavra alguma desde a sua chegada, apenas perguntas que se diziam importantes — era rápida e logo saía de meu campo de visão. Fora, com Lílite, umas cinco vezes na cozinha para saber se Mônica necessitava de ajuda. Demoraram uma hora no máximo por lá, e logo estavam aqui.
Tinha pena. Não poderia deixar Mariana para dar atenção às duas, não poderia chamá-las para se juntar conosco. Então, tão comicamente quanto ridículo, as duas ficavam do outro lado de meu quarto, onde uma parede nos separava. Eu brincava de roubar beijos com Mariana, e as duas cansavam Mike de tanto carinho e brincadeiras. Só que elas não precisavam ficar ali, à espreita, como se estivessem espiando. Conseguiriam muito bem andar pela casa, ficar conversando com Mônica.
E, ao menos terminei de pensar isto, e as duas desceram as escadas.
Mas eu estava feliz. Era o que importava agora, afinal, eu havia conseguido algo que ansiei durante muito tempo.
— Que horas você marcou mesmo? — Mariana desordenava meu cabelo, introduzindo as mãos entre os fios úmidos. Eu me encostava em seu colo, a cabeça abaixo de seu pescoço, o mais confortável impossível. Eu trocava o canal da televisão constantemente, inquieto, insatisfeito.
Por que eu chamei Bruna para vir mais cedo?
Superficialmente, eu queria demonstrar que nada havia mudado, como prometi há algumas semanas. Com a desculpa de que nossa amizade seria a mesma. Insisti carinhosamente que ela viesse, mas avisei que Mariana estaria aqui. Ela mesma recusou a vir, mas fui tão persistente e idiota, que lá estava ela, sem coragem para encarar o casal sobre a cama. Mas estava ali.
— Daqui a uma hora.
Depois de armar um caos sobre minha cabeça, Mariana organizou os fios e os deixaram em pé com gel, como estavam antes dela bagunçar.
A última hora antes de me jogar na fogueira passou rápido demais, eu me entretia com um programa na TV, o que era raro. Entre as gargalhadas e alguns toques de lábios, os números do relógio marcaram 19h. Gritei um palavrão que arrancou as risadas de Mariana, Bruna e Lílite. Decidi conferir a aparência no espelho ao lado do guarda-roupa. Era um traje para uma saída casual, e ao mesmo tempo, para minha chamada de morte. A tortura.
O cabelo brilhante de gel, penteado levei-um-choque que eu nunca usava, uma camiseta preta estampada, calças largas brancas e um All Star simples, cinza. Não pude deixar de olhar a gaveta de acessórios, e observar uma correntinha prata, a qual Bruna me dera no aniversário passado. Este ano ela ainda não me entregara o presente, mas quando chegou aqui em casa, notei que um pacote com uma fita preta enorme estava na cozinha, e Bruna e Mônica faziam de tudo para que eu não o visse. Confesso que a curiosidade quase me corroeu, mas me mantive.
O reflexo opaco da luz na correntinha fitava meus olhos, me deixando na tentação de colocar aquele cordão de prata em meu pescoço. Refleti durante alguns segundos. Mariana com certeza perguntaria da onde era aquela peça charmosa e cheia de lembranças para mim, e eu não poderia mentir na frente de minha Bruna. No entanto, dei de ombros e passei o cordão por cima de minha cabeça, ajeitando-o no espelho.
Saí de meu guarda-roupa tecnológico — que ao mesmo tempo era um closet disfarçado, frescura que minha mãe mandou construir assim que completei quatro anos — e voltei para os braços de Mariana. Mal pude me sentir confortável, e eis que a maldita campainha soou. Corri para o andar de baixo, minha mãe já havia atendido a porta. Era Pedro.
— Tinha me esquecido de como você era pontual! — Pedro me abraçou e deu vários tapas em minhas costas, com um embrulho brilhante em mãos. Desejou-me tudo aquilo que se é dito em aniversários, com um entusiasmo inútil. Agradeci, mesmo que tivesse ouvido aquilo dele mesmo, à meia-noite de hoje, pela Internet.
— Se você não gostar... o problema é seu. — brincou ele, enquanto eu abria a caixa comprida e rasa, totalmente prateada. Um livro estava em seu interior. Mas não era qualquer livro.
— "Rise of the Ogre"! Eu não acredito! — empolguei-me rapidamente, mudando de idéia quanto à festa. Era um livro que eu queria ler havia tempo demais, e sua linguagem era apenas em inglês. Mas eu tinha conhecimento o suficiente na língua até para ler um livro.
Abracei-o novamente, pondo em evidência minha súbita alegria, tagarelando sem parar. Levei o presente para me quarto, e Pedro cumprimentava as meninas. Lílite sempre corava quando Pedro estava no mesmo ambiente, e desconfiava o porquê. Mas não tinha certeza.
Era quase claro que ela também era apaixonada por ele. Mas nem de Bruna eu conseguia arrancar esta quase óbvia resposta, então desisti de me passar por um suposto
cupido.
E como se 19h fosse um horário de trânsito humano, minha modesta casa entupiu-se facilmente. Havia gente que eu mal conhecia, e tive raiva de minha mãe. Sim, naqueles poucos minutos, Mônica transformou-se em uma mãe horrível que convidava todos os conhecidos possíveis para assistir seu filho em um inferno particular.
Mas o pior não eram os desconhecidos que mergulhavam na piscina e "acidentalmente" quebravam os copos de cristais do bar, e sim meus primos que não passavam dos oito anos, aqueles que minha mãe prometeu não convidar. Jurei que teria uma conversa séria e soturna o bastante para fingir que tinha moral com Mônica, a policial experiente.
Em torno das 20h, minha casa já chamava a atenção da vizinhança por completo. Meus tios que moravam tanto longe quanto perto estavam ali, jogando conversa sobre os mais diversos assuntos fora, em minha sala. Crianças de colo que eu tive que conhecer andavam desajeitamente apoiadas nas paredes e seguradas pelas minhas tias mais novas. Os primos que eram de minha idade flertavam vergonhosamente as meninas, incluindo Bruna. Apenas Matheus, o primo de dezesseis anos, sabia de toda minha história, minhas dificuldades de me relacionar, os fatores que influenciavam em meu inferno na Terra, tudo. E sabia também, sem precisar eu dizer palavra alguma, que todos aqueles primos traíras que paqueravam Bruna estavam quase a ponto de serem quebrados por um soco meu.
Entre um petisco e outro, eu atendia a porta, e minha casa lotava cada vez mais. Eram pessoas da escola, da família, do trabalho de Mônica. E mais presentes, incontáveis presentes. Alguns odiáveis, mas a maioria, graças ao Senhor que ouvia minhas preces regularmente, eram maravilhosos.
— E o meu presente? — não quis ser incoveniente, mas Bruna nunca deixou de me entregar algo que eu deseja muito, e sempre me surpreendia. E era a primeira a entregar, de todos.
— Calma! Não se preocupe, você terá o seu presente. — e ela caminhava de volta para a roda de garotas que ficava no canto de meu quarto, cochichando e olhando feio para mim.
Apesar da aglomeração nos três andares da casa, conforme os minutos passavam eu me sentia cada vez mais entediado, ou mais provável, triste. Mais um pouco e tinha certeza de que estava decepcionado. Bruna me garantira o presente, mas parecia que ela não me daria nada. Quando havia tempo, entre uma rápida conversa com um parente e outra, eu ia ao banheiro de meu quarto e me encarava no espelho. Também andava para o terraço de meu quarto, que havia trancado por precaução das crianças menores. Sempre pensativo.
E, como eu não esperava, a famosa hora do bolo não foi tão ruim. Fora um horror, fora totalmente indescritível e torturador. Todos os convidados amontoaram-se em minha sala de jantar, e quem não conseguia passar pelo arco da porta que agora aparentava minúsculo, ficava de espreita na sala de estar. O bolo, enorme e até que apresentável, por ser feito em última hora. Três camadas separadas por um pequeno pilar de metal, cada andar em uma bandeja de prata. Era inteiramente coberto por tufos de chantili. Digno de um casamento. E ali, observando as chamas das velas que indicavam "13", eu batia palma junto ao coro que gritava freneticamente a música do "Parabéns a você", em vez de cantarem.
Desta vez, como eu esperava, e graças às fofocas de meu namoro que foram espalhadas antes mesmo de eu descer de meu quarto para cortar o bolo, a idiota música do "Com quem será" foi exatamente com quem eu pensava. Mariana.
Quando cantaram o seu nome, ela caminhou empolgadíssima até o meu lado, atropelando quem estava em seu caminho, ou seja, Bruna. Ela não estava ao meu lado enquanto os flashes eram batidos em minha cara, enquanto as faíscas das velas queimavam o bolo. Ao meu lado não estava ninguém que eu desejava, como meus amigos. Estavam meus primos demoníacos e hiperativos, que enfiavam os dedos safados para dentro do bolo, crentes que ninguém fosse vê-los. E sim, não estava ninguém que eu desejasse mesmo, com Mariana incluso. Ela selou meus lábios, provocando gritos de felicidade e aclamação de todos ali presentes, menos o de Bruna.
Durante toda a tortura eu sempre contemplava o par de olhos mais lindo do universo, para avaliar a sua reação, ou até mesmo como um impulso, uma forma de dizer "Tire-me desse inferno, melhor amiga!". Ela respondia com um sorriso amarelo ou até mesmo gesticulava palavras acolhedoras, mas na hora da música temida, ela simplesmente fugira do ambiente.
Esperei toda aquela cerimônia de apagar as velas e inclusive fazer um breve discurso — no qual me saí muito bem, até um pouco divertido — passar para procurar minha melhor amiga, que não ficou todo o período para me acomodar, me acalmar diante daquelas pessoas. Vasculhei a casa inteira enquanto os outros entravam novamente na piscina ou comiam pedaços do bolo, mas ela não estava em lugar algum.
Resolvi procurar em meu quarto, mas não havia nada ali, a não ser o som ligado em alto volume, vibrando ao passar uma música eletrônica. Até entrei em meu guarda-roupa, mas nada havia ali.
Foi quando caminhei em frente à porta trancada e opaca de minha varanda. Olhei para a porta de meu quarto para certificar de que nenhum pentelho a atravessaria, e fui para a varanda.
Quem eu procurava estava ali, sentada com as pernas cobertas apenas por um shorts curto para fora da varanda, penduradas no ar. Estava sentada em cima da cerca que separava o chão seguro da altura perigosa de três andares. Podia ver um vulto entre a cerca de suas pernas balançando regularmente, mas a cabeça estava baixa, emitindo várias fungadas. Esperei alguns segundos, aproveitando enquanto ela não notava minha presença, e me aproximei.
Notei que vários lenços de papéis estavam ao seu lado, todos amassados.
— Você não está pensando em se matar, está? — perguntei em uma voz surpreendentemente feliz, e não acreditei que fosse pela festa. Era mais coerente que fosse porque eu havia achado Bruna.
Ela interrompeu uma crise de choro que estava começando, e virou a cabeça imediatamente para mim. Dei um sorriso amarelo, mas depois que notei que haviam lágrimas saindo de seus olhos, aproximei-me dela o mais perto possível.
"De novo não", pensei.
— O que foi? O que aconteceu?
Não pude deixar de terminar de falar e ela apoiou a cabeça nas próprias mãos, tendo mais uma crise sensível. Abracei-a como em todos os momentos que ela chorou, mas nada adiantara. Ela chorava ruidosamente, enquanto eu esperava ela conseguir falar. Foi entre a inconformidade de algo que eu não sabia o que era e fungadas assustadoras que ela conseguiu me explicar:
— Não sabia que substituir meu nome pelo dela no "Com quem será" iria doer tanto — quando terminou a frase, jorros de água rolaram pela face desesperadamente.
Achei que teria dó, mas tive vontade de lhe dar um tapa.
— Você está chorando por causa disso? — minha voz saiu áspera, no entanto esperei não magoá-la ainda mais.
— E-estou — larguei meus braços que abraçavam involuntariamente seu corpo, me afastando. Entendi que reconfortá-la seria pior para parar de chorar. Fitei as estrelas que cobriam o céu de um modo esparramado, tendo pela primeira vez, paz naquela noite. O silêncio preenchido pelas lágrimas barulhentas de Bruna deixavam a noite mais triste, arrancando de mim o empolgamento inacreditável pela festa. De vez em quanto, eu olhava pelo canto do olho para ver como estaria Bruna, e ela não saiu de sua posição de choro: a cabeça apoiada nas mãos. Caminhei pela varanda, esperando pelo momento certo. Tranquei a porta para certificar que ninguém nos interromperia.
Bruna então, depois de enxarcar seu oitavo embrulho de papel, silenciou o choro, deixando-o apenas em algumas lágrimas que escapavam uma vez ou outra. Passei a mão sobre suas costas, agora podendo fazer aquilo sem receio. Aos poucos, ela cedia, deixando que o silêncio dominasse o ambiente, e a dor passasse.
— Acho que Mariana precisa ir embora. São 23h agora. — sussurrei com doçura enquanto olhava o relógio e a porta. Ela assentiu, e voltei para a festa.
Procurei minha namorada, e não demorei a achá-la. Perguntou onde eu estava, e rapidamente inventei uma desculpa de que estava no telefone. Ela, como esperei, disse que sua irmã mais velha estava esperando-a na porta de casa. Beijei-a demoradamente, agradecendo sua presença e o presente que me dera. Acompanhei-a até a porta.
Quando voltei para meu quarto, vi que a porta do banheiro estava aberta e a luz acesa. Aproximei-me e vi Bruna ajeitando o cabelo, o rosto molhado. Seus olhos estavam um pouco ruborizados, vários pontos em sua face também. Depois de se enxugar, apagou a luz.
— Ela já foi — falei, em tom de acaso. Ela obviamente estava melhor.
— Ainda tem muita gente lá em baixo?
— Sim — lamentei.
— Droga! — seus olhos percorreram o chão, mas logo voltaram para os meus. — Minha cara está muito feia?
— ... não?! — Era impossível ser feia. Bruna era linda sempre.
— Estou apresentável? — insistiu, agora impaciente.
— Sim, está — sorri rapidamente, e ela disparou porta afora. Disse para eu não segui-la.
Voltei para o terraço, sentando no mesmo local que estava Bruna. Observei distraído o céu quase negro totalmente limpo, sem muito no que refletir sozinho. A calmaria invadia meu espírito novamente, devolvendo-me a preguiça, a paz. Estava com as pernas se agitando sobre o nada, pendurado na cerca, correndo risco de vida. Fitei o chão da calçada, que refletia a luz azulada do primeiro andar de casa. Ainda pude ouvir vozes entrelaçadas, unindo-se em um zunido só. Tinha a certeza de que todos aqueles que me parabenizaram estariam ali, aproveitando tudo o que minha paciente mãe e minha casa, que agora parecia um cubículo, tinham a oferecer de interessante. Também estava começando a me conformar de que eles começariam a deixar a casa assim que o dia seguinte chegasse, ou seja, daqui uma hora.
O clima estava seco; como eu não gostava, exatamente. Senti um pouco da claustrofobia invadindo meu corpo, mas respirei fundo e acalmei, quando o vento começou a assoprar as folhas dos carvalhos e os meus fios de cabelo.
Ouvi o barulho da porta abrindo-se, e de um modo provavelmente paranormal, eu sabia que era Bruna. Não virei para olhá-la, brincando comigo mesmo, testando minha habilidade em diferenciar presenças. Dei uma risada grave e sem graça.
— É tão... estranho. — arrisquei, ainda sem olhar para a pessoa que estava ali.
— O quê? — dei outra risada idêntica quando reconheci a voz doce e inacreditavelmente bonita. Ela pareceu não entender, mas me ignorou. — Cale a boca! — brincou — Venha aqui, o risco é menor de seu presente cair no chão e se quebrar em alguns de pedaços.
Saí de meu assento novo — o qual, apesar da casa ser minha, nunca ter sentado ali, por ter vários outros lugares normais para se sentar, ou talvez por ter um mínimo senso de autoproteção.
Deparei-me com uma enorme — talvez medisse metade de minha estatura — caixa de presente no chão, comprida e gorda. Aparentava bem maior do que aquele pedaço que eu havia visto pela manhã, no balcão de minha cozinha. Era totalmente branca, envolvida por uma fita que vinha dos quatro lados, preta e de cetim. Era reluzente com a luz vinda da parede, mas, movido pela curiosidade, puxei a fita sem cerimônia.
Quando removi a tampa, meus olhos arregalaram-se e senti que minha boca se abrira. Bruna dava alguns risos disfarçados, esperando minha reação por completa. Uma capa preta e sinuosa residia o interior da caixa. Retirei o objeto um pouco pesado, abri o zíper.
— Um violão! Como... como você...
— Achei a sua cara — interrompeu-me — Não achei presente que mais combinasse com você. E eu mesma afinei.
— Adorei! — falei com sinceridade enquanto avaliava o instrumento preto com as bordas brancas. Suas tarraxas eram douradas e cintilavam quando encontravam a luz. Deixei o violão em cima da capa com cuidado, enquanto levantava-me para abraçar Bruna. — Obrigado mesmo! Adorei de verdade! — dei entusiasmo às palavras e ao meu gesto, levantando-a do chão com meu aperto forte. Ela apenas respondia com sorrisos demorados, que habitualmente derretiam meu coração.
— Eu sei que você não sabe tocar muito... mas eu também posso te ensinar agora — gracejou, e fazia expressões engraçadas, elevando as sobrancelhas. Apanhei o instrumento e passei os dedos sobre as cordas, maravilhado pelo som uniforme e agradável que saíra. Arrisquei uma pequena música e insignificante perto daquelas que Bruna dedilhava humilhantemente, e o som a transformou em um uma esplêndida melodia.
— Até que você não toca tão mal. — e deu mais um riso, para a coleção. Sorri gentilmente, agradecendo com os olhos mais uma vez pelo presente perfeito. Toquei novamente a mesma canção, encantado com o som que o aparelho produzia.
— Posso? — pediu ela, a voz simpática, quando terminei a infame música. Hesitei, sabendo que teria que me rebaixar diante dos cantos que ela produzia em seu violão. Imaginei como seria demonstrar novamente sua habilidade musical no novo instrumento, que faziam de minha pobre melodia uma canção apresentável e até que bonita.
Então, ela começou.
Os dedos finos e pálidos, assim como no dia anterior, trabalhavam alternavam de posição sobre o braço do violão, pressionando as cordas certas, enquanto a outra mão dedilhava uma corda por vez, unindo as notas que não faziam sentido para mim, em uma única música, uma única sensação. Era tão maravilhoso quando assustador. Não acreditei que provocaria uma emoção tão diferente quanto reconfortante, era quase tão boa como aquele torpor que eu sentia quando estava na presença de Mariana. O som acústico ajudava a trazer a calma e a harmonia de volta ao meu espírito, o toque de sua unha ligeiramente comprida e aparada em linha reta contra a corda emitia, a cada vez mais, a vibração artística de uma profissional de apenas doze anos, que transmitia ondas de felicidade e conforto através da melodia.
E, para meu paraíso estar completo, enquanto eu me deitava no chão para observar o céu e seu rosto concentrado na música perfeita, sua voz saiu em um contraposto de meu dia, o dia que apresentou-se um inferno, até aquele momento.
"No one knows what it's like
to be the bad man
to be the sad man
behind blue eyes
and no one knows
what it's like to be hated
to be faded to telling only lies
but my dreams they aren't as empty
as my conscious seems to be
I have hours, only lonely
my love is vengeance
that's never free"

(Limp Bizkit - Behind Blue Eyes)





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Capítulo 11 - Conforto


Vários pingos adornavam o vidro embaçado do lado de fora, com um pequeno círculo transparente sobre meu nariz e minha boca. Do outro lado de onde eu refletia sem conseguir parar, a chuva caía sem dó, aclamando pelo verão que estava apenas em seu início. O barulho quase silencioso dos pára-brisas era nauseante, o rádio ligado não estava ajudando em minha distração. Minha respiração era irregular, eu baforava a janela enquando relembrava de minha noite anterior, onde eu velava o sono de Bruna, por volta das três horas da manhã. Seu descanço era mais doce do que seu próprio aroma, era leve, vivo e divertido. Quase poder assistir seus sonhos era mais prazeroso do que ver um programa de televisão preferido, um filme que goste ou um jogo de futebol para quem é fanático. Sua pele ficava quente ao adormecer, eu podia enlevar-me de seu repouso tão perfeito, acariciando a maçã de seu rosto, beijando as costas de sua mão, e ela ao menos se incomodar com isto. Sussurrava palavras, aparentemente românticas, mas no fundo apenas amistosas e sinceras em seu ouvido, tentando fazer com que ela sonhasse com aquilo.
"Isso não vai mudar nada entre nós."
"Promete?"
"Prometo."
A pequena passagem que ocorreu segundos antes de nosso primeiro beijo caminhou pela minha mente em forma de uma pequena indigestão, perfurando a boca de meu estômago.
— Estou enjoado — sussurrei contra o vento levemente frio do ar condicionado, que também não colaborava com meu enjôo.
— Não posso parar o carro agora, está chovendo — disse minha mãe, com uma leve impaciência na voz.
Mônica detestava Mariana. Mônica detestava Mariana e todo o resto de sua família, que já dera problemas demais à delegacia. Ela estava me levando ao aeroporto para recebê-la de volta... e não era bem isto que ela queria. Discutiu comigo sobre querer pedi-la tão cedo em namoro, e ficou inconformada com a expressão de dor de Bruna quando foi deixá-la em casa. Ficou indignada de tal forma que parecia que Bruna era sua própria filha.
Abri o porta-luvas, procurando algum tablete de bala. Achei uma, mas olhar o sabor, pude sentir que quase vomitaria. Joguei o tablete de volta ao seu lugar, fechando o porta-luvas.
Respirei fundo três vezes, e isto ajudou um pouco. Já havia lidado com e enjôo de carro, e não eram poucas vezes.
Mas tinha certeza que não era o movimento do carro e a claustrofobia corrente que eram os motivos do enjôo, e sim a viagem em si.
Agora, mais do que qualquer outro momento, era deprimente estar indo em busca de minha futura namorada que, verdadeiramente, não gosto. Porém, não estava indo em sua busca, e sim procurando paz para minha dor que durara mais que doze anos.
E daqui a algumas semanas, treze anos.
Mônica, por outro lado da momentânea depressão, estava preparando minha próxima festa de aniversário. Pedi a ela quase todo dia que desistisse da idéia, afinal era horrível me imaginar de novo, na frente de uma mesa decorada sutilmente, com os primos pequenos à minha volta, e os melhores amigos distantes de mim. No entanto, ela concordou em convidar os primos mais velhos e meus amigos. Só.
Então, o problema não seria a repetitiva festa, mas a vítima do famoso canto "com quem será". Não há mais graça, ainda mais se for com uma pessoa diferente de Bruna, que já era perita em participar de tal brincadeira ridícula. Principalmente, se a brincadeira fosse comigo.
Agora, então, eu teria que apresentar Mariana como minha nova e primeira namorada e selar seus lábios na frente de todos, e não beijar a bochecha de Bruna quando a brincadeira fosse terminada.
Apesar da controvérsia, o devaneio diminuiu um pouco minha náusea. Estávamos perto do aeroporto, e Mônica estava ficando cada vez mais mal-humorada.
Eu porém, estava cada vez mais aflito, inquieto. O café-da-manhã digerido agora queria voltar para fora, insatisfeito com o que encontrou em meu estômago.
Ou seja, borboletas.
— Vai mesmo conseguir ser simpática com eles? — falei agora um pouco mais alto, mas ainda com ânsia. Mônica concordara, antes de sair, que iria me fazer companhia, até levá-los para casa, onde eu iria ficar à sós com Mariana.
— Posso não ser das melhores mães, mas acho que sou boa atriz — e deu uma risada baixa, o rosto empinado.
Assenti.
Ela estacionou o Audi com cuidado e destreza, abrindo o guarda-chuva marrom.
Um silêncio preenchido apenas pelo barulho dos aviões e pela chuva que molhava a barra de minha calça era irritante.
Do silêncio, porém, Mônica se perguntava porque seu filho era tão mau. Isso era um fato, eu podia sentir.
— Não te criei deste jeito, Guilherme. O que fez você deixar Bruna com uma cara tão feia hoje de manhã? — sua voz era cortada por alguns raios que caíam longe dali.
— Acho que não é questão de como fui criado... e sim de como pensei pra chegar nisso.
— E como você chegou nisso? — o aeroporto, agora estávamos em seu interior, era um tanto quente e convidativo. Minha náusea passara, mas ainda eu insistia em ficar nervoso. Era tão grande quanto iluminado, onde passamos por mais uma barreira de portões de vidro automático, e as lojas anunciavam produtos caros e precisos. Lanchonetes, lojas de roupas, etc.
— Cansei. Simplesmente cansei de ficar correndo atrás de Bruna — minha segurança foi tanta na frase, que não acreditei que estava nervoso.
— Vou fingir que acreditei.
Caminhamos em direção ao segundo andar, onde provavelmente Mariana apareceria. Certifiquei, pela quinta vez, de que o porta-anel estava em meu bolso, e que a coragem estava dentro de mim.
Ambos conferidos.
No elevador, era possível ter a visão dos vários aviões que decolavam, um barulho abafado pelo vidro. Uma música suave e instrumental soava pelo ambiente, parecia que tentava me tranqüilizar. Tentativa tão falível quanto a música do carro de minha mãe.
Realmente poderiam ter desistido de continuar os vôos naquele dia; justo aquele dia tão chuvoso.
Mas era algo lógico: chovia bem no dia em que eu iria fazer a coisa mais corajosa de minha vida.
— Ainda está enjoado? Posso comprar alguma coisa.
— Não, passou. — tirei a jaqueta cinza e a segurei em meu ombro.
— São 9:36h. Ainda temos algum tempo — Mônica agora parecia bem-humorada. Era como uma criança, gostava de luzes, ou como uma adolescente, gostava de lojas. Caminhamos pelos comércios, ela comprou uma calça para si mesma. Nada ali chamava minha atenção, meu guarda-roupa fora completado mês passado.
Depois de darmos uma volta completa, fomos procurar a sala de desembarque número 2. Lá sairiam os vôos nacionais, e sentamos nos bancos confortáveis à sua frente.
O mais cômico era o modo de como eu ficava impaciente com espera. Nunca consegui, de fato, esperar verdadeiramente por algo, com exceção para uma coisa que vocês já estão cansados de saber. Por ela, eu esperaria a vida inteira.
Nunca conseguia esperar por algo, se fosse quieto, sentado, calmo. Sentado naquele banco, um porta-anel que mantia em segredo duas alianças que mudaria a vida de três pessoas, uma mãe que mais parecia uma amiga da mesma idade, balançando os cabelos curtos constantemente, eu batia o pé num ritmo irritante. Roía as unhas constantemente, desenredando as questões curiosas que apareciam no grande telão preto às minhas costas. Ia ao bebedouro, brincando com a água gelada demais para o tempo lá fora, bebendo litros até minha bexiga implorar pelo mictório. Incrivelmente, quando voltava, minha mãe estava ali, imóvel, com a paciência que a profissão e a experiência lhe oferecera, em porções generosas. Ela fitava ora fitava o vazio, ora me olhava por inteiro, ora mexia em seu celular multifuncional.
Então os números grandes do telão marcaram 10h. O aeroporto de Verone City não era famoso por atrasar vôos. Então, o vôo 1943 chegaria exatamente nesse horário.
Comecei a suar frio — era muito ruim. Não podia abanar-me porque estava frio, mas transpirava. O conjunto de borboletas voava novamente, em vôo alegre em meu estômago, e tive que tomar mais água para ver se acalmava elas. 10:01h.
Uma senhora de cabelos alvos e baixinha saiu com uma pequena mala de rodinhas. Logo depois, uma jovem alta, uma mulher, uma criança ativa e, finalmente, uma garota de longos cabelos lisos.
— Mariana! — meu grito extremamente alto foi involuntário, algumas pessoas se deram o trabalho de me encarar.
Não liguei.
Levantei-me imediatamente da cadeira, ela procurou de onde saíra a voz. Acenei alto, e ela estampou um sorriso enorme ao me reconhecer.
Abandonou sua mala, correndo de braços abertos.
— Que bom te ver! — estendendo as vogais da frase, pulou em meu colo, afundando o rosto em meu ombro. Ignorei tudo à minha volta, não importava mais nada.
Meu refúgio estava ali, novamente me levando às nuvens. Eu conseguia sentir o torpor, a sensação de conforto me agarrando para livrar-me de todo mal, de tudo o que eu quisesse realmente afastar de mim.
Ou talvez não.
— Senti saudades — minha voz misturou-se em seus fios lisos artificialmente, porém brilhantes. Não era capaz de dizer se poderia ser verdade ou mentira, mas... era como se me forçassem.
— Quase morri de saudades. — E me beijou duas vezes, selando meus lábios. Os olhos de esmeraldas transmitiam doçura, o que eu realmente precisava para me acalmar.
Quando seu corpo foi para o chão, segurei forte em sua mão, cumprimentando o resto de sua família problemática. Era indignante, todos pareciam família da antiga Mariana. A miopia era hereditária, o cabelo ondulado e preto era visto em cada um deles. Mariana era a mais nova intrusa, a adotada.
— Vamos para casa, agora. Quero contar tudo para você. — despedi-me de minha mãe, e ela desapareceu pelas portas de vidro do aeroporto. Parara de chover, então caminhei ao lado de Mariana até chamar um táxi, sempre brincando com o dedo no bolso, sobre o porta-anel.




— Mas eu ia te ligar! - menti descaradamente, enquanto entrávamos em sua casa modesta, eu pela primeira vez.
A entrada era, primeiramente, a sala de jantar, com uma porta diretamente para a cozinha. Ao lado direito, íamos para uma área com uma enorme estante entupida de incontáveis livros, uma escrivaninha e um belo quadro. Por trás da estante, havia uma parede com uma TV e um sofá. O irmão mais novo de Mariana jogara-se no sofá, ligando o video-game.
Subimos as escadas, e notei que a decoração feminina — obviamente propício, afinal a casa era governada por mulheres — emanava tudo. Desde os quadros às estatuetas modernas. Eram, ao todo, sete cômodos no andar superior. No térreo, apenas quatro o compunham.
Mariana, assim que entrou em seu quarto, ligou o aparelho de som e despejou-se na cama, coberta por uma colcha fina, estampada por círculos e flores, variantes de branco ao verde-limão.
Todas as paredes eram brancas; o teto era verde escuro. Ela sempre disse que quando ficava confusa, a cor a ajudava a organizar os pensamentos.
Era uma cor viva, ativa, prática. Do tapele felpudo ao lustre moderno, o verde estava presente. Sempre em tons alternados, mas estava ali.
Me senti em uma floresta.
Sentei ao seu lado, acariciando seus fios finos e amarelados.
— Damien Rice — falei, em tom indiferente, reconhecendo a música e quem a cantava.
Um sorriso deu vida ao rosto dela, e conseqüentemente ao meu também. Eu sabia que tinha deixado a tristeza para trás, era inevitável.
— Quer fazer o quê? — levantou-se, encostando na cabeceira da cama pequena. — Ah! Tenho uma surpresa para você. — e saltou para fora da cama, buscando na mala pesada, do outro lado do quarto.
— Também tenho uma surpresa... — olhei casualmente o chão, sempre cutucando a caixinha em meu bolso esquerdo. Ela não pareceu alterada, continuou procurando.
Achou um pequeno embrulho prateado, em formato irregular. Ela o segurava de modo que parecia macio.
Veio até mim novamente, sentou ao meu lado.
— Para você. — e entregou o pacote para mim.
Fiz uma cara de espanto. Sorri involuntariamente.
— Obrigado — e abri com cuidado.
Retirei um urso de pelúcia peludo e macio. Seu pêlo era bege, quente como um cobertor. Em sua pata esquerda, estava escrito "Me to You".
— Adorei — era verdade. Um apetrecho tão romântico não era má idéia. Selei seus lábios, outra vez, involuntariamente. Puro impulso.
— Ah, também tem isso — um porta-retrato preto, com várias fotos nossas nas laterais. No centro, a foto bem maior, e eu a abraçava por trás, beijando sua bochecha.
Uma memória ousou interromper o momento, levando consigo meu sorriso.
Era tão semelhante à foto minha com Bruna. Ao meu retrato com ela, que sempre ficou ao meu lado quando eu adormecia.
Uma pontada forçou minha mão ir até meu peito para segurá-lo.
A partir de hoje, o retrato que ficaria em meu criado-mudo era aquele.
— Que lindo. — foi o que minha voz conseguiu pronunciar.
— Olha o meu — e ela apontou o dedo para sua cabeceira, onde havia um porta-retrato idêntico, porém de cor roxa.
Forcei um riso baixo. Contemplei nossa foto, o que aquilo significaria para mim. O que mudaria em minha vida, em nossas vidas.
A vida de três pessoas. Minha, de Mariana, e de Bruna.
Ela observava meu rosto, parecia que estava tentando decifrar meus pensamentos. Mantive a cara sóbria, tentei dar um sorriso. Falhou.
— Agora, minha surpresa — estava determinado agora. É claro que não desistiria tão fácil, por causa de uma simples imagem.
— Ah, sim. É verdade. O que é? — tive dó de Mariana. Tão despreocupada e cansada da viagem. O tom distraído não significava que ela estaria pronta.
Mas nada me impediria.
Peguei sua mão direita, coloquei em minha perna, ainda segurando. Enfiei a outra mão no bolso, apertando a caixa.
— Sabe — comecei, fitando suas pernas cobertas por uma calça cinza. — Eu tomei a liberdade de fazer uma coisa enquanto você estava fora.
Era tão inútil aquela conversa. Era perceptível, fitando seus olhos, que o brilho já estava muito visível.
— Pensei bastante, e comprei isto. — agarrei a caixinha, coloquei entre nós. Abri.
Sua boca se abriu, os cantos dela se elevaram. Ela me encarou com as esmeraldas brilhantes.
— Quer namorar comigo? — um choque leve correu por meu corpo, tentando fazê-lo tremer. Eu não sabia o impacto daquela frase, era tolamente frio.
Esperei o abalo a emoção que, sem desejar, fez meu sorriso manifestar-se novamente, acabar. Impossível, afinal aquilo poderia ser seu maior sonho. Ela pegou os anéis, observou-os.
— Claro que quero! — exclamou como se fosse óbvio até para uma criança.
Seu sorriso me esquentou, e aos poucos coloquei o anel em seu dedo anelar. E ela colocou o outro anel em meu dedo.
Mas ela ainda estava admirada.
— O que foi? — perguntei apenas para descontrair. A resposta era clara.
— Eu não acredito! Foi tão... de repente! Foi tudo o que eu sempre quis! — ela gesticulava comicamente as mãos, abrindo e fechando-as. — Mas eu nunca imaginei que seria... que seria hoje!
— Quer que eu peça outro dia? — brinquei, o rosto sério.
Ela riu, jogando a cabeça para trás. Puxou-me pelo braço, fazendo-me ficar por cima de si, deitada. Beijei sua boca minuciosamente, experimentando, agora calmamente, a textura de seus lábios. Ela deixava, pacientemente, eu executar meu teste. Repuxei seu lábio inferior levemente, fechando meus olhos.
Então nos beijamos enquanto começava a chover novamente. Os ruídos do cair das gotas em cima do telhado, nas folhas das árvores, na rua, era embalante. Eu estava em meu lar, no meu refúgio. No novo conforto que passaria a me curar todos os dias, ou a cada vez que nós nos víssemos.
Dedilhava os fios finos e frágeis de Mariana, estávamos sentados de frente para o outro, os lábios colados. Nossas línguas enroladas em uma só, seus dedos finos andando por meu rosto.
Não era, nem nunca seria o protótipo do paraíso que eu gostaria de possuir, mas era um tipo desconhecido. E bom.
— Você às vezes não parece ter doze anos. — disse em voz baixa e quente, os olhos esverdeados calorosos.
— Nem você aparenta quatorze. Mas por que não pareço ter doze? — uma pergunta inútil, até eu mesmo reconhecia não ter a idade que tinha. A aparência, os pensamentos. A modéstia também.
— Preciso dizer? — até ela.
— É bom ouvir novamente — sorri.
— Uma criança de doze anos nunca me encantou tanto.
— Ora, criança! — elevei minha voz uma oitava, rindo um pouco. — Então você não se importa em namorar uma criança?
— A verdade? Não.
Elevou os cantos da boca, mostrando os dentes brancos. Incentivou-me a beijá-la novamente. Incrivelmente já acostumara com os beijos, tão facilmente que impressionava até a mim mesmo. O tecido era familiar, um tipo diferente, mas reconhecido. Até mesmo no dia em que eles se encontraram pela primeira vez, o sabor era doce.
Doce como a infância, como o abraço de uma amiga, as palavras ressussitadoras de minha mãe.
Uma velha amiga...
— Agora você pode dizer que me ama? — o cuidado especial nas palavras, querendo não ser incoveniente. Grudei minha testa à sua, já estávamos enrolados em sua colcha fina, a cama desorganizada.
— Claro. Te amo — não podia ser perfeito. Era humanamente impossível. Ela não poderia ser tão perfeita, nunca fora. Mas por que eu me sentia tão bem?
Não havia o porque agora. Não mais.




Capítulo 10 - Alianças


Minha cabeça baixa amenizou a dor; repousei-a nas mãos, apoiadas nos joelhos. O barulho constante do chuvisco lá fora fez com que eu organizasse meus pensamentos, mas apenas parcialmente. O silêncio comum de casa era familiar mas terrivelmente inquietante, como se estivessem dando lugar às vozes que falavam em minha mente, responsáveis pela pontada que incomodava.
Os números digitais de cor branca diziam que eram 23:45h. Amanhã eu haveria aula. Já passara da hora de dormir, senão seria obrigado a cochilar no intervalo da escola.
Dei de ombros.
A cena continuava a rodar em minha memória fresca como um pião; eu consolando Bruna por uma coisa que eu mesmo iria fazer. E vou mesmo. Estava decidido, não haveria como voltar atrás.
Com algum esforço, as lágrimas dela secaram e acalmaram-se há poucas horas. Isto deu motivo para eu ir embora, já que ela estava em um estado melhor.
Algo que era preciso fazer, e não que eu quisesse.
Queria poder dormir ali com ela, acalmá-la e dizer que estava tudo bem. Dizer e fazer o possível que não fosse uma das últimas vezes que íamos ficar tão próximos, ou sozinhos.
Quando cheguei em casa, ainda tive que suportar alguns minutos de minha mãe falando sem alguma pausa para perguntas ou opiniões. E o mais intrigante é que ela tinha total razão.
Disse que não é a primeira vez que penso em mim, mas entendia meu sofrimento. Que mãe não entenderia.
Tagarelou que, mesmo eu não percebendo, fui egoísta o tempo todo. Agia muitas vezes, como nos nossos dois beijos enlouquecedores, sem pensar direito, colocando minha necessidade de cura em primeiro lugar. A cura que eu precisava para o amor que eu carregava nas costas e no coração, durante toda minha vida.
A paixão por minha melhor amiga virara obsessão; disso eu já tinha conhecimento o suficiente, mas também chegou a ultrapassar o senso de amizade.
Estávamos na quinta-feira. Eu teria apenas amanhã para me "despedir" de Bruna, no sábado, quando Mariana chegasse de viagem, eu a pediria em namoro.
Levantei a cabeça. A tontura passara, apenas precisei me acostumar com a claridade. Escovei os dentes, e desmoronei na cama.
Cansado demais para sonhar, dormi rápido, sem nenhuma interrupção.
Despertei assim que o relógio marcou 6:14h. Acordei disposto, renovado, uma coisa difícil de se ver comigo. Mastiguei meu café-da-manhã indiferentemente, pensativo. Aproveitei que estava com tempo e tomei uma ducha, escovando os dentes no banho. Depois, peguei minha mochila e saí para o frescor da manhã.
Era o único período do dia que eu gostava, além da madrugada. No verão, eram as únicas horas em que eu podia andar na rua sem transpirar, ou até mesmo sem desejar uma piscina. Nas madrugadas quietas e levemente frias, principalmente nas esperadas férias, eu passava acordado na frente do notebook, sempre com a porta ou a janela aberta para o mundo. O vento circulava por meu quarto, e eu acompanhava as estrelas sumirem conforme clareava o céu.
Enquanto andava tranqüilo, a brisa leve levou embora meus pensamentos sobre o que faria naquele dia e no dia seguinte, balançando de leve meu cabelo molhado. O pêlo de meus braços se enriçava conforme a brisa aumentava, e sorri de leve por estar com camiseta, e não regata.
Na terceira quadra, encontrei com Bruna, como todos os dias.
— Bom dia - cumprimentei, e a recebi em meus braços um pouco frios. Ela vestia uma calça jeans branca e apertada, calçava um par de All Star preto e uma camisa listrada de manga curta e gola.
Tentei não olhar seu decote em U.
— Oi - e me beijou no rosto, retribuindo meu abraço. Mas não era o abraço que eu sempre tinha nas manhãs, e sim um abraço desconhecido. Sem vida.
Caminhamos em silêncio pelas próximas duas quadras. Silêncio terrível aquele, pouco comum nas primeiras horas do dia. É certo que ela nunca estava cem porcento acordada, e não precisava estar só porque eu estava. O barulho das folhas das árvores se debatendo eram, ao mesmo tempo, intimidador e reconfortante. Preenchiam o silêncio, mas diziam que havia silêncio demais para nossas vozes.
— Como você está? - perguntei de repente, chutando uma pequena pedra branca no chão. Minha voz era terrivelmente revelante, o guinchar de meu tênis na calçada molhada era irritante.
— Melhor - respondeu, hesitante.
Eu não ouviria aquela doce voz com tanta freqüência agora. Repeti várias vezes para mim mesmo, em mente.
— Que horas ela chega? - indagou, engolindo em seco. A dor era tanta em sua voz, que pressenti que choraria novamente.
Passei o braço por sua cintura.
— Dez da manhã.
Fitei o enorme prédio, agora próximo e muito visível. Uma pequena aglomeração movimentava-se na calçada, um tanto rotineiro aquilo.
Parei de andar, e avancei sobre Bruna, fazendo-a encostar no muro de uma casa. Coloquei os braços à sua volta, formando uma gaiola.
— Mas isto não importa agora, entendeu? - fiz a voz mais doce que pude. A mais convincente também, para ela e para mim.
— Sim - murmurou ela, deixando escapar uma lágrima. Sequei-a com o dedo, selando sua testa com meus lábios.
— Se você chorar, vou embora mesmo - falei em tom sério, enquanto virava meu corpo para o lado contrário, de brincadeira.
— Não - protestou, agarrando com força meu braço. Assenti, rindo. Ela não riu.
Continuei a caminhar para a escola.
— Parece até que vou morrer - brinquei novamente, mas só consegui arrancar um sorriso fraco.
Estava chegando semana de provas, para depois as tão esperadas férias. Terminando as tarefas, Bruna apanhava as apostilas e aprofundava os olhos nas letras monótonas. Sempre fora inteligente, a melhor da turma. Não havia necessidade de estudar.
Mas acompanhei seu ritmo, pensando que depois não haveria porque de reler a matéria nas vésperas das provas.
Quis conversar, mas ela não mostrou estar disposta. Cada comentário meu, ela murmurava algo insignificante. Cada pergunta, uma resposta monossilábica.
Decidi que não me incomodava mais a presença dos demais ali, à toa, com um professor fitando, entretido, às custas dos próprios alunos.
— Pare de me ignorar - murmurei com decisão, enquanto puxava sua mão para a minha, arracando-a do livro.
— Não estou te ignorando - segredou, fria e inexpressiva. Mentia bem, por isso eu sabia que aquilo não era mentira, apenas se fazia de difícil. Era simplesmente ridículo.
— Escute - pedi, paciente - Quer dormir em casa hoje?
Pensou. Fechou o livro.
— Está certo - concordou, hesitante. Nunca pensei que fosse tão fácil convencê-la.
Talvez os doze anos de conhecimento ajudassem.
— Vou sair depois da aula - falei, enquanto me virava de lado, encostando na parede - Depois, vou te buscar.
Contemplou meu rosto, como se esperasse afã por uma resposta.
— Vou comprar as alianças - revelei, temendo por sua reação. Olhei fixamente através do prata inebriante e profundo de seus olhos, a pupila retraída pelas grossas faixas de luz que atravessavam a janela ampla da sala. Aparentavam incerteza, e acima de tudo, dor.
A dor que eu não poderia mais curar.
E não respondeu.
De quinta-feira tínhamos uma aula a menos para assistir. Meu relógio de pulso marcava 11:32h quando saí da escola, após conversar com Pedro e algumas outras pessoas, algo que era habitual. Voltei para casa, peguei a bicicleta e fui para o centro, onde havia uma joalheria.
O centro não era longe. Algumas quadras, mas debaixo do sol infernal, não era convidativo. Queria comer algo para aplacar a fome, mas almoçaria ao lado de Bruna, em casa, no sossego e frescor dos cômodos grandes do meu lar.
Entrei na joalheria, e logo pedi. Uma tamanho 20, a outra 18.
Bruna seria tamanho 17, com certeza. Seus incríveis dedos finos eram um tanto macios quanto frágeis, e ágeis.
Dissipei Bruna de minha mente, mandando gravar nossos nomes nos anéis. Estava disposto à pagar, dinheiro nunca fora problema. Agradeci minha mãe mentalmente, enquanto observava casualmente os diamantes chamativos, na vitrine de cima. Experimentei a argola prateada, servia perfeitamente. Mandei colocá-las no porta-anel azul-marinho, entreguei uma nota verde e fui embora.
Guardei o embrulho em meu bolso mais fechado, pedalando agora para casa de Bruna. Missão cumprida.
Apareci na porta de seu apartamento, transpirando levemente, e com algo em meu bolso que parecia pesar toneladas. Ignorei, ao vê-la. Era tão extraodinário o modo como eu conseguia maltratá-la, como eu poderia ser tão áspero com ela. Chegava a ser desumano, ser ríspido com alguém tão belo interiormente e exteriormente, que ontem mesmo, parecia estar murcho, afogado em poças de água salgada.
Ela carregava uma pequena mochila escura, havia trocado de roupa. Estava perfumada, o rosto cintilante e glorioso. Sorriu ao me ver.
Pedalamos, como era um costume rotineiro no verão e na primavera, para minha casa. Meu devaneio continuava, assim como nós, a traçar seu caminho sem parar, sem se cansar.
— Cadê Mike? - interrompeu ela, o silêncio que durou todo o percurso, entrando em casa. Chamei pelo meu labrador, e ele veio, o rabo agitando-se veloz. Lambeu-nos com vontade e estava indeciso, não sabia para quem dava atenção. Decidiu perder seu fôlego com sua eterna "namorada", já que eu estava considerando a pequena mochila de Bruna, que levava para meu quarto, e não ele.
Na solidão parcial de meu quarto, eu vasculhava a segunda gaveta da escrivaninha, que guardavam DVDs. Selecionei alguns, logo mais colocando-os perto da TV. Pela primeira vez, depois de tantos anos convivendo com ela, não sabia o que fazer.
— Bruna - chamei.
Ouvi seus passos se aproximando enquanto eu buscara pelo meu calção de banho no guarda-roupa.
— Pode se trocar - afirmei, agarrando o calção branco.
Ela assentiu, pegando sua mochila e indo até o banheiro.


— Ahh. - suspirei satisfeito do almoço, enquanto me encostava na beira da piscina, de olhos fechados. Bruna divertia-se, tentando boiar sobre a água, sentada, me fitando intensamente.
— Você come tanto e não engorda - observou ela, olhando minha barriga e sorrindo. Envergonhado, endireitei-me, afundando mais na água. Minha barriga não era lá tão vergonhosa, até porque, sem ser modesto, eu tinha até alguns músculos visíveis. Mas era estranho ser admirado por alguém que não fosse você mesmo, ou sua mãe. Soltou uma risada ao ver que eu estava corando, e nadou por debaixo d'água até o outro lado. Pegou o controle remoto, ligou o aparelho de som que ficava ao lado da piscina.
Sorri ao ouvir as primeiras vozes da música.
I dreamed I was missing, you were so scared? - sussurrava em melodia, e nadava despreocupada. Aumentava o volume de sua voz conforme passava a música, sempre me impressionando com seu maravilhoso dom com a voz. Chegava a humilhar o cantor famoso.
Relaxei novamente.
So if you ask me then I want you to know - cantamos em coro, minha voz quebrando a harmonia que ela tinha com a voz do cantor. Calei enquanto ouvia ela cantando o refrão, então bebi meu refresco.
Aproximou-se.
— Sabe - começou, dando um ar repreensivamente indiferente - andei pensando melhor, enquanto você ia no centro.
— O quê? - perguntei, também tentando me passar por descontraído.
— Acho que não vai ser tão ruim assim.
Pisquei.
— Você sabe, namorar com ela - estimulou.
Elevei uma sobrancelha.
— Como chegou nessa conclusão? - indaguei, curioso.
Ela se afastou, nadando.
— Pensei bem... isto pode ser bom pra você. Não que, no começo, eu tenha pensado que você não quisesse. Aliás, não havia pensando em nada além de mim mesma, no começo.
Silenciei. Linkin Park na caixa de som não estava ajudando com meus raciocínios.
— É claro que eu ainda... não acredito que não vou mais ter você todos os dias comigo, mas aprendi a aceitar que você não é propriedade minha.
"Eu seria, se você quisesse", pensei. Dei uma risada totalmente sem divertimento, tentando fazer como se fosse por suas palavras tão... formais.
— E que você pode namorar quem você quiser - disse, hesitante.
— Você fala como se ela fosse algo sem importância alguma. - soltei, sem pensar antes. Mas sabia que, cordialmente, ela era sim, algo sem importância, para minha história com Bruna.
Ela virou de repente, e me encarou com demasiada dor nos olhos.
— Está bem, não vamos começar uma briga por causa disso - interrompi imediatamente. Não convidei ela pra discutir comigo. - Que bom você entender isso! - falei, sorrindo.
Ela deu de ombros, ainda muito distante de mim.
— Desculpa? - estendi os braços em sua direção, unindo as sobrancelhas, uma voz melosa. Ela me fitou, com ressentimento, e nadou até mim.
No entanto, quando chegou perto, mergulhou o corpo para baixo d'água, e me puxou pelos tornozelos. Afundei, sem força nenhuma, engolindo água.
Voltei para a superfície, engasgado.
— Bobão - riu, se afastando.
Quando consegui respirar normalmente, lancei sobre ela um olhar malicioso, e ela nadou até a outra ponta. Nadei por baixo para ganhar tempo até ela, mas foi inútil. Quando olhei, ela estava fora da piscina, correndo para o jardim dos fundos.
Segui seus passos rapidamente, umedecendo todo o chão, quase escorregando no degrau para fora. Ela corria, balançando os cabelos molhados, dando uma volta em torno da casa. Depois, voou para dentro dela, sempre com sua risada formando harmonia com a minha. Uma paz que eu não queria abandonar cedo, principalmente quando o relógio do dia seguinte apitasse 10h.
A hora em que eu teria que ir no aeroporto, para ver com quem eu iria passar o resto de alguns meses.
Ela já ia subir para o segundo andar, mas então eu consegui agarrar sua perna, que fez ela cair sobre os degraus.
— Droga! - gritou, fingindo um desesperamento, enquanto eu lhe fazia cócegas. Não simples cócegas, mas quase beliscões.
Ela não sabia se ria ou se implorava para eu parar, mas continuava se contorcendo, tentando agarrar meus braços.
— Repete comigo - falei, enquanto ela ria.
— Não! - gritou novamente.
— Repete - pronunciei sílaba por sílaba, fingindo autoridade.
Mas ela conseguiu escapar, e se jogou na piscina, por ver que era a única saída.
Mergulhei logo em seguida, gargalhando alto.
— Não! - falou alto, quando me viu quase próximo ao seu corpo, de novo. Tentei agarrar seus braços, mas ela afundou, nadando para o outro lado.
— Chega! - pedi, enquanto tentava olhar debaixo d'água para ver se ela não tentaria puxar meus pés novamente, mas ela já estava na superfície.
— Parei. - ela disse, mas ainda sorrindo.
Afundei um pouco.
— Vem cá - sussurrei.
Ela se aproximou, afundando também. Fitou a água.
— Eu te amo - disse, com água na boca, provocando bolhas.
— O quê? - seus olhos fitaram os meus, mas peguei suas mãos e as afudei junto comigo, puxando seu corpo para baixo.
Lá em baixo, era outro mundo. O azul turquesa inundou meus olhos, conspirando contra tudo que já vi. Não que nunca mergulhei em uma piscina, mas não lembrava como era entorpecente esquecer do mundo afora.
Mas ela estava lá, para não me deixar esquecer de nada.
"Eu te amo", mexi meus lábios em forma de cada sílaba, para Bruna. Ela prendia a respiração e balançava a cabeça negativamente, com uma expressão engraçada, e quase pude ler seus pensamentos. "Bobão."
Fui à tona, puxando ela também.
— Agora entendeu? - encarei seus olhos vívidos, que pulsavam de vida. Ela assentiu, abrindo um sorriso maravilhoso. Selou minha bochecha, me abraçando. Pousou a cabeça em meu peito.
Suspirou.
— Por incrível que pareça, eu também.
Absorvi as palavras, acariciando seu cabelo molhado.


— Por que ele é tão lindo? - perguntou Bruna, enquanto recolhia com a mão um punhado de pipoca.
— Eca - emiti nojo, enquanto bebia o refrigerante - prefiro a Bellatrix.
— Eca digo eu! - disse alto, enquanto passava uma cena de luta com magia na tela da TV.
Só consegui rir, procurando uma boa resposta.
Lá fora, o sol começava a sumir pelo horizonte, pouco a pouco. As faixas de luz que sobressaíam das nuvens atravessavam o vidro da janela da sala de estar, em direção à parede diagonal que ficava na nossa frente. Eu estava na horizontal, com a cabeça no colo de Bruna, sobre alguns lençóis. Assistíamos Harry Potter e a Ordem da Fênix, e já estávamos na cena quase final.
Avada Kevadra! - gritou a minha personagem preferida da série, enquanto magia de cor verde fluorescente saía de sua varinha torta, em direção ao seu primo, Sirius Black.
— Você viu? Ela matou Sirius Black! Ela matou o próprio primo! E como você pode gostar dela? - questionou Bruna, transpirando suas habilidades teatrais, como se estivesse mesmo indignada com tamanha ficção.
— Como se você nunca tivesse visto esse filme antes - ri, mastigando pipoca.
— Mesmo assim, coitado do Harry.
Achei tão medíocre discutir uma série que já quase não havia mais graça, que ignorei.
Quando os créditos do filme começaram a passar, espreguicei-me sobre seu colo, enquanto observava ela repetir meus gestos. Cutuquei sua barriga nua, o que fez ela contrair-se, rindo. Levantei-me e retirei o DVD, recolhendo os lençóis sobre o sofá, dobrando-os. Bruna virou-se para a janela, e fitou o pôr-do-sol, que de imediato, fez ela colocar um braço contra a luz, pela tamanha claridade.
— São 18:32h. Odeio o horário de verão - falei, enquanto empilhava os lençóis no pufe branco. Não havia mais noção do tempo nesta época, era como se estivéssemos nas 4 da tarde.
— Queria ver de perto - ela disse, apoiando a cabeça em seus braços, sobre o encosto do sofá.
— Vamos lá fora.
Levei-a até minha varanda, onde era tão mais visível e quase palpável aquele deslumbrante fenômeno da natureza.
Lá, os raios de sol transformavam-se em ondas de calor constante, que aqueciam o vento trazido pelas primeiras horas da noite. Faixas de cores diferentes estampavam-se no céu, variadas entre o laranja forte e o azul marinho. Tentei enxergar do outro lado, e só consegui avistar um crepúsculo que consumia o clarão vindo do horizonte. A fascinante esfera quase branca escondia-se lentamente sobre as casas e os prédios, encantando Bruna de uma forma extasiante, que fixava seu olhar somente na claridade vinda da esfera.
Ela sentou sobre a rede de algodão que agitava-se com seu peso, e fiz o mesmo.
Parecia que estava me ignorando, e estava, certamente. Eu examinava seus olhos, tão tentadoramente ofuscantes, vivos, como se pudessem falar por si, sós. Um prata que acabara de ser polido cansativamente, um cinza tão claro que quase seria confundido com a parte alva de seus olhos, se não fosse pelo brilho e os pequenos traços azuis neles contido. Olhos de uma felina, com a pupila totalmente redonda e negra. Expressavam harmonia e deslumbramento, agora que seu corpo relaxara.
Um outro mundo, fitar seus olhos. Como em baixo d'água.
Talvez não havia tantos motivos para olhar tão intensamente aquele fenômeno para mim como havia para ela, então deitei novamente sobre seu corpo. Admirei, com uma visão de baixo como era seu corpo sobre a luz solar.
Era ainda mais encantador.
Era quase involuntário dizer "Acorde", mas não quis interromper aquele momento único, com ela tão distraída e comigo querendo desesperadamente saber o que caminhava por sua mente. Segurei-me, tentando me distrair olhando, de vez em quando, as listras da rede.
— É tão... estranho - começou, a voz baixa, quase em um sopro.
— O quê? - olhei-a, sua expressão estava incrivelmente paralisada, sem olhar para mim.
— Saber que... vou ter que me acostumar a conviver mais com Lílite, ou Paula.
— Ah, Bruna... não vamos começar a...
— Deixa eu falar - interrompeu, olhando para as próprias pernas cobertas por um curto shorts.
Depois, voltou com os olhos para a claridade que se dissipava vagarosamente.
— Eu também queria encontrar uma pessoa - sussurrou, com uma leve camada avermelhada preenchendo suas bochechas.
— Não! - soltei sem pensar, levantando-me. Que droga era agir por impulso.
— Por que não? - perguntou, virando o rosto para me olhar pela primeira vez.
— Porque... porque... - lutei com alguma resposta coerente, mas nenhuma se encaixava. Todas que pensei faziam parte da mais pura verdade, nenhuma seria favorável. Ela balançou a cabeça.
— Tinha certeza que você sabia que eu também tenho todo o direito de namorar alguém - continuou, com desprezo na voz.
Desejei morrer.
— Eu sei disso. Apenas... - hesitei, achando melhor não falar absolutamente nada. - Desculpe.
— Tudo bem - mas suas sobrancelhas se uniram, formando uma expressão de perplexidade.
O tom de azul agora estava mais escuro e cobria mais as cores claras; uma leve brisa começava a circular pelo ambiente. As folhas balançavam, fazendo barulho.
— Não que não goste de estar com elas. Elas são minhas melhores amigas, muito pelo contrário. - hesitou, engolindo em seco. - Gosto tanto de estar com elas... quase como gosto de estar com você. - seus olhos me encararam, o rosto queimando ainda mais por um tom de sangue.
Foi assim por um bom tempo. Ficamos na pausa entre a troca de olhares, o rosto corando de vez em quando. Por dezenas de minutos, o silêncio permaneceu ali, calando nossas vozes, deixando que apenas o vento e as folhas das copas das árvores falassem; o calor do sol já era inútil. Vi o pêlo dos braços de Bruna se enriçarem, mas que não provocaram nenhuma mudança em sua posição, ela aparentava uma morta-viva. O que era vivo em seu corpo, e único, era o par de olhos prateados.
— Quero que você seja feliz com ela - murmurou, a voz menos dolorosa. - Sinceramente.
— Obrigado - respondi, sem vontade. Era claro como água que ela não queria desejar isso, e para isso estava tão silenciosa. Estava criando coragem para dizer aquilo, lutando com as palavras.
O sol já desaparecera. Não havia mais luz ali, a não ser da varanda. Uma mísera lâmpada elétrica, que não produzia calor. Porque Bruna estava totalmente fria.
Eu também.
— Quer entrar? - perguntei, com receio. Era como mexer com uma ferida ainda aberta, a carne vermelha ainda aparecendo.
— Fique aqui comigo - pediu. Sua voz agora recuperou quase todo o tom doce que possuía sempre. Aparentava de uma moça que pedia humildemente que eu a ajudasse em algo importante, não uma garota que estava sofrendo pela perda de um amigo.
Repousei as costas em um lado da rede, e a puxei com cuidado para meu colo. Ela cedeu aos poucos, com algumas poucas gotas largas de água saindo de seus olhos. Não tinha expressão de dor, ela não emitia sons de choro. Mas chorava, e seu coração doía, pedia pela ajuda do meu, quase curado.
Ou quase ferido.
— Não chore - sussurrei em sua orelha, encostando sua cabeça em meu ombro. Um grilo começou sua sinfonia, e isto me acalmou. Enrolei uma mecha de seu cabelo castanho em meu dedo, brinquei levemente com ele.
— Por que, Guilherme? - balbuciava em agonia - Por quê? Por que eu sei que não vou me acostumar a te perder? - e meu anjo da guarda não cessava às lágrimas, simplesmente escondia-se em meu peito, o rosto distorcindo em melancolia.
— Shhh. - eu murmurava, secando todas as lágrimas que podia, não acreditando que eu era capaz de fazer uma coisa que só a magoaria.
E novamente, o anjo estava murcho, inseguro, indefeso, afogando-se no próprio choro que não a abandonava, que eu não conseguia fazer abandoná-la. O anjo sem asas chorava, chorava com toda a vontade que possuía, toda a dor transparecendo no momento.
Nunca pensei que a situação poderia se reverter; no entanto, lá estava ela, passando ao contrário.
O anjo chorou, esperneou, me machucou. Apertei sua cabeça contra meu peito, querendo transmitir segurança, mas nada ali havia mais sentido para ela, nada havia de ser feito. Nada mais era possível para consertar.
Esperei que a água evaporasse, e o anjo finalmente parasse com a crise. Sim, porque aquilo era apenas uma crise, haveria como passar.
Pelo menos era o que eu pensava, querendo me enganar.
Não pronunciei nenhuma palavra com o receio de falar alguma besteira, então calei. Quando o anjo finalmente cedeu, rendendo-se ao cansaço, ajudei-lhe a levantar.
Bruna esfregou o rosto com as costas da mão, apanhou sua mochila e foi ao banheiro. Iria se lavar, talvez até colocar os pensamentos em ordem.
Desprezivelmente, me deixou sozinho na nostalgia de meu quarto, onde, ao som de Rufus Wainwright, as primeiras gotas salgadas começaram a rolar por meu rosto, manchando o lençol de minha cama. Pouco a pouco, foram umedecendo minhas bochechas, dando um tom acinzentado ao lençol branco. Eu sentava com as pernas em X sobre a cama, fitando apenas as lágrimas que no lençol se dissipavam.
Quando finalmente consegui enxugar todas, Bruna saiu do banheiro. Deitou em minha cama, e fui me lavar também.
A água em jato da ducha relaxou, como todas as vezes, meus músculos. Funcionava como um anestesiante, e quando percebi, estava há quase quarenta minutos de baixo do chuveiro.
Girei a torneira, passei a toalha por meu corpo. Vesti uma camiseta limpa, uma bermuda bege.
— Está com sono? - Bruna estava recostada em minha cama, o edredom escuro sobre sua regata clara. Observava o porta-retrato que situava-se geralmente em meu criado-mudo, mas agora ela apertava-o, apoiando por cima das pernas. O rosto era sóbrio, mas eu quase pude enxergar que meu lençol tinha ficado mais cinza.
Fui para o seu lado debaixo do edredom, e fitei a fotografia onde eu beijava sua bochecha. Rapidamente, um flashback ocorreu. Era outono do ano passado, as folhas douradas e alaranjadas precipitavam, inúmeras, sobre nosso fundo. Ela, com um cachecol xadrez e eu, com a gola de minha camisa toda amassada, com meus braços a agarrando por trás. Ela sorria, tão sinceramente.
Tempos que não voltam mais.
Beijei seu rosto, provoquei. Afastei seu cabelo da orelha, mordi o lóbulo, mas como um gesto de um amigo que queria apenas provocar risadas, não como um sedutor barato.
— Prometo que essa cena poderá se repetir muitas vezes - murmurei contra os fios curtos de seu cabelo, que molhavam o travesseiro.
Deitei meu corpo, ela também. Virei-me para ela, fiquei acariciando seu rosto. Respirei seu cheiro, o cheiro que lembrava o conforto, uma amiga velha, uma boa vibração.
O prata de seus olhos era ofuscante, me contemplava tão encantadoramente, mas eu não tinha tanto interesse para ela.
— Eu te amo - ela segredou, fechando os olhos.




Eu também.


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Capítulo 9 - Decisão


Voltei para casa sozinho, assim como havia ido.
Agora os holofotes iluminavam distintamente o céu, pondo em evidência os pontos brilhantes que formavam constelações. Os edifícios da grande cidade estavam de ponta a ponta iluminados, de cores neons variantes de azul a rosa. Enquanto pedalava em um ritmo irregular de volta para casa, devido ao comum trânsito do horário, peguei o caminho perto do mar, perto da ponte. Fitava gloriosamente tudo à minha volta.
Eu beijara Bruna. Claramente que, por motivos de urgência, mas beijara.
Um beijo simples, apenas um toque com os lábios, mas quem se importa?
Só nosso. Era o que importava. E provara também que eu possuía certa coragem, um passo um tanto satisfatório no meu caso.
Guardei a bicicleta na garagem, logo depois refrescando meu rosto na piscina coberta, ao lado da garagem. Subi as escadas, empolgado e ao mesmo tempo confuso, indo direto à ducha.
Liguei o computador enquanto desabava na cama, rindo de mim mesmo. Estava sem fome, pois abusara das pipocas e de um lanche na saída inacreditável.
Pensara no dia inteiro, desde as ainda inacreditáveis horas na escola sem Mariana, e todo o percurso pelo shopping e o cinema. Observei o teto de meu quarto, enxergando cenas nas quais eu ia passar maior parte do tempo lembrando.
Lembrei primeiro do maravilhoso e quase paraíso ocorrido há cinco meses, nosso primeiro beijo. Pude relembrar como era apoderar-me de seus lábios intensos, carnudos e corados. Macios como algodão e deliberadamente quentes, que nunca saciavam-se com o que tinham, no caso, minha boca. Foi exatamente assim naquela enevoada noite, onde nossos lábios se encontraram, juntamente com o batimento de nossos corações.
Depois, quase pude sentir a textura doce de sua boca hoje, se não fosse pelo medo e pela frieza. Ela não retribuiu, mas fui bem capaz de relembrar como era.
Refletindo tamanha frescura, me levantei e sentei na cadeira do computador. Abri meu e-mail, tendo duas mensagens novas.
“Gui” Começava a primeira mensagem.

Como você vai? É incrível o que dois dias sem nos falar faz, não é?
Minha irmã está bem, graças. Ela fez a cirurgia e está se recuperando bem. Minha tia não pára aqui na casa, mesmo que o estado de Júlia esteja ótimo, ela passou os dois dias dormindo no hospital. Estou falando do computador velho do sótão, já que minhas primas não me deixam mexer no delas.
Minha avó mandou um enorme abraço pra você, e quando eu voltar, vou te entregar uma surpresa.
Nesses dois dias longos e estranhos nesta cidade mais estranha ainda não parei de pensar em você. Juro.
Sinto muito sua falta,
Mariana

Sem piscar, abri a outra mensagem da mesma remetente.

Ah, que cabeça a minha! Esqueci de falar o mais importante.
Te amo muito.

Reli os e-mails, indeciso.
Fechei rapidamente a página do e-mail, desligando o computador. De repente ficara com uma forte dor de cabeça, como se meus pensamentos fossem cortados.
Soquei a parede com raiva, sem sentir dor nas falanges. Não acreditava no modo como Mariana, ao mesmo tempo que levava meu estado de espírito para longe, desacordando-o, entorpecendo-o, tirava também de mim meus bons momentos e coisas que eu tinha prazer em lembrar. Sabia que não era sua intenção fazer isso, pois era inevitável.
Repousei na cama, vestindo meias brancas. Encostei a cabeça no travesseiro, pensando no que acabara de ver. Memorizara as palavras na cabeça, avaliando o efeito de cada uma, apesar delas não serem um pingo de novidade. Tentei pensar novamente em Bruna, seu coração palpitando forte nos dois momentos extraordinários que tivemos, mas não obtive sucesso. Mariana continuava totalmente firme, ocupando toda minha mente. Passei algum tempo relembrando nosso beijo, nossas conversas, e principalmente como era bom estar na sua presença.
Aprendi a lidar com isto.


— Não tenho dúvidas, meu irmão, você está se desligando de Bruna – afirmou gloriosamente o Pedro, enquanto roubava a bola de basquete de mim.
— Não estou perdidamente apaixonado por Mariana, Pedro! – gritei comicamente, quando ele se desviara de mim, mirando a esfera diretamente na cesta. A bola rodou no aro, e caiu fazendo barulho.
Corri para ela.
— Não estou dizendo isto, babaca – riu – mas que você finalmente está dividindo a atenção que tinha por ela com Mariana, e isto é tão bom que, no seu lugar, eu gritaria de felicidade.
— Pode ser que não – consegui pegar a bola, e arremessei na cesta contrária – Tenho um medo maior de que esteja machucando Bruna, e nem isto consigo distinguir. Acho que o beijo de ontem não ajudou absolutamente em nada.
— E além do mais, se você se sente tão bem com ela, e isso foi bem provado ontem ao ler o e-mail dela, tem que aprender a dividir a atenção e saber lidar quando machucar alguma das duas, e prepará-las para isto. Que saco! Bruna não fará o maior escândalo se você passar um dia inteiro com Mariana, e acredito que nem Mariana faria o mesmo.
Empatei o jogo, enterrando a bola na cesta alta.
— Não sei.
— Além do mais, tenho certeza que um namoro com ela te faria muito bem.
Tentei agora tornar-me mais compreensivo, entender o efeito das palavras de Pedro. Tentei absorver aquilo, sendo que não era só ele que já comentara. Lembro que Mônica já disse que ela me ajudaria a esquecê-la, mas para mim era perdidamente impossível.
Fiz outra cesta.
— Por um lado pode dar certo; não penso em Bruna quando estou com ela... mas o convívio diário com ela pode fazer com que eu me acostume... e volte a pensar em Bruna – disse, totalmente hesitante.
Pedro assentiu.
— Mas também pode ser quer isso não aconteça, que Bruna vire apenas uma boa amiga. Não custa tentar – disse ele, parando para tomar água.
Parei a sua frente.
— Pedro, não é questão de tentar ou não, porque não envolve só minha vida – falei, incrédulo com a falta de pensamento dele – Mariana me ama. E eu – hesitei – vou usá-la para esquecer Bruna?
— Todo mundo faz isso.
Não acreditei no que ele disse. Pedro não podia ser tão infantil assim.
— E é por isso que todo mundo se dá mal.
— Mas você gosta de Mariana, e isso pode justificar muito bem.
— Não quero iludi-la – murmurei, a frieza tomando conta de mim. Estava ficando com raiva. Soltei a bola, que rolou até os pés de Pedro.
— Não vai! – disse ele, cuspindo sua irritação – Se começar a iludi-la, vai terminar com ela e você mesmo vai passar a mão em sua cabeça. Tudo estará certo. E é para seu bem. Acredito que se ela soubesse, entenderia. Não deixaria escapar esta oportunidade!
Dei uma risada sarcástica, dizendo que ia embora. Ele me levou até o portão de seu condomínio, e andei lentamente até em casa.
Namorar com Mariana. Não me soava empolgante, no entanto também não parecia um monstro. Não poderia ser ruim, afinal que eu me sentia tão bem perto dela.
Eu ansiava para experimentar como seria o começo daquilo, se realmente acontecesse: ficaria horas entorpecido, sem pensar em Bruna, apenas curtindo a presença e todo o amor que Mariana tinha a me oferecer, todo o amor que eu necessitava. Mas, para meus revezes, meu maior medo era de não conseguir fazer feliz a pessoa a quem eu só queria bem, e machucá-la, como eu achava que estava fazendo com Bruna.
Voltei para casa, não parando de raciocinar nas consequências que aquilo viria a me trazer. Uma fria garoa começou a cair, provocando algumas faíscas de choque em minha pele. Eu estava quente, e as gotas frias pouco a pouco me jogaram à realidade, congelando meus braços nus.
Entrei em casa, fazendo as coisas diárias sem perceber. Minha mente ainda longe dali, posso falar que há milhas. Quando me dei conta, estava a mais de vinte minutos debaixo da ducha, e desliguei, com a mesma questão martelando...
Valeria a pena namorar Mariana?
Pedi a Belinda avisar minha mãe quando chegasse em casa. Mesmo que fosse algo rotineiro conversar com Mônica, agora soava um pouco mais para motivo de ficar completamente nervoso. Não saberia como começar, não saberia do que falar. Naquela hora, Mônica aparentava mãe de verdade, daquelas do gênero das quais não se conversa sobre tudo, não como ela era realmente para mim.
Sem perceber, acabei cochilando.
Sonhei que os papéis se inverteram, onde eu namorava Bruna mas quisesse apenas Mariana.
No sonho, eu fitava Mariana intensamente a cada passo seu. Estávamos em uma danceteria, e seu par era Pedro.
Nunca consegui imaginar Pedro com Mariana. No entanto, lá estavam os dois, agarrados e envolvidos em uma dança, em um sonho mais real do que a própria realidade.
Bruna, que não mais pertencia aos meus verdadeiros desejos, tentava arrancar minha atenção e alguns beijos meus. Minha vontade de beijá-la resumia-se a nada, o que era teoricamente impossível, e então, aconteceu.
De repente, Bruna soltou-se de meus braços frouxos aos berros, reclamando alto. Porém nenhuma de suas palavras faziam sentido. Pôs-se a chorar desesperadamente, fazendo todos ali à minha volta pararem de dançar, e fugiu do ambiente.
Despertei com minha mãe à minha frente. Não enxerguei quase nada, apenas alguns pedaços embaçados.
Um sinal, seria bem provável.
— Calma, Guilherme. Vá lavar o rosto.
Cambaleei direto ao banheiro. Enxagüei meu rosto, enquanto tentava ouvir as palavras de minha mãe:
— Belinda disse que você queria falar comigo. Que pediu para lhe avisar quando eu chegasse... E aqui estou eu.
Não consegui responder, lembrando da cena ocorrida há meses. Um sonho desesperador, minha fala que não conseguia sair. Meu estômago agitando-se nauseantemente.
— Filho? - indagou ela, caminhando preocupada até a porta de meu banheiro.
Fiz força para a voz sair.
— Você... acha... que devo namorar Mariana?
O favorável foi que eu sabia que Mônica nunca contrariaria alguma palavra minha sobre minha fase da adolescência. Poderia soar totalmente fútil o que acabara de sussurrar, mas ela entendeu facilmente.
Veio para meu lado e acolheu meus ombros de uma forma impossível de permanecer duro.
— Conte-me tudo.
Sentei na beirada de minha cama e comecei a murmurar toda a história, inclusive o sonho que acabara de ter.
— Hoje ela me enviou um e-mail - disse, enquanto ligava o computador para lhe mostrar. Silenciei por alguns momentos, tentando tomar fôlego e não pensar no sonho que tivera. Mostrei-lhe o e-mail, fugindo das palavras que me entorpeciam facilmente, do mesmo que me cegavam. Fitei o relógio, que marcava 21:19h. Esperei, vagando os olhos por todo o ambiente familiar, e finalmente ela suspirou.
— O que aconteceu depois que você leu? - questionou, em tom maternal.
— Tem também a outra mensagem.
Mônica abriu o outro e-mail, lendo rapidamente em pensamento.
— Não consigo mais pensar em Bruna quando Mariana faz alguma coisa para mim. Sinto uma espécie de torpor, como se toda minha história com Bruna ou qualquer coisa parecida se dissipasse.
Ela assentia, encostando as costas na cabeceira de minha cama.
Não consegui parar de falar.
— E hoje, quando fui para o prédio de Pedro, ele disse que isso era muito bom. Mariana poderia servir como algo para esquecer Bruna, já que eu gosto dela e ela me retribui mais do que mereço.
Obviamente, isso não ia adiantar quase nada, mas depois é questão de continuar a enganá-la ou terminar com ela.
Me olhou com rispidez, como se soubesse que eu estava exagerando.
— Foi mais ou menos assim - continuei.
— Sabe, Guilherme, nunca te ensinei a fazer essas coisas. Isso é pura influência de seus amigos, por mais que eu goste deles.
— Sei bem disto, afinal Pedro disse hoje que todos faziam isso. Namoravam outra pessoa quando queriam esquecer outra.
Tamanha sinceridade incomodava minha pobre progenitora.
— Nunca pensei que Pedro fosse capaz de dizer isto! - sua expressão era engraçada - Mas você sabe muito bem, que não é por isto que você vai namorá-la, não é?
— Sim - concordei sem ânimo.
— Que foi?
— Não é entusiasmante. Não tenho vontade de fazer isto, mas também não é ruim.
Mônica refletiu por alguns instantes. Fitei o que dava para ver do céu azul-escuro de minha varanda, coberto de pequenos pontos brancos.
— Você vai fazer isto mais pelo o que a menina faz. Ela faz você esquecer Bruna.
— Não concorda comigo, mãe? - perguntei, distante. Hesitei. - Para fazer bem para mim. Vai fazer bem a ela também.
— E quando você não a quiser mais?
— Vou fazer o possível para isto não acontecer - Pisquei um olho.
Sorriu.
— Ah, entendi. É assim que se fala - seu sorriso estampou o resto da face, mergulhando nos olhos grandes e prata. - Vou jantar. O que vai comer?
Jantei, ainda pensando. Era uma coisa que exigia tempo, eu precisava sentir novamente o resultado de como era estar na presença de Mariana. Não precisava ser realmente estar com ela, apenas mais uma mensagem, ou uma ligação.
E o telefone tocou.
Como sempre ocorreu comigo, a voz de quem menos queria ouvir estava ali, pendurada ao aparelho telefônico, com sua dona há algumas centenas de quilômetros.
Não demorara alguns segundos e minha decisão estava confirmada. O timbre feminino e fino de sua voz afastou de mim todas as reflexões e conceitos que levei a tarde toda para raciocinar, e enfim, lá estava uma única idéia, um único pensamento.
— Oi, Mariana.
Conversamos durante uma hora. Colocamos os assuntos essenciais aos mais inúteis em dia, absorvendo ao máximo toda a ilusão que ela criava enquanto balbuciava palavras melosas e cafonas, mas um tanto reconfortantes.
Desliguei a chamada, um pequeno sorriso estampado no rosto. Porém, debrucei-me sobre a escrivaninha, com a cabeça baixa e pus-me a pensar novamente, e deixava sem querer todo aquele bem que Mariana fazia sobre mim escapar lentamente.
Mas, de uma coisa estava devidamente correto. E antes de mais nada, teria que 'preparar' Bruna para isto, assim como ela pedira.
Era necessário prepará-la para o choque de anos de uma amizade sem ninguém para interferir, para dar uma pausa em nossa amizade que mais aparentava um namoro, assim como simplesmente queria, apenas com alguns argumentos físicos para acrescentar, meu desejo era tão fútil que nem eu mesmo acreditava.
Não podia imaginar que no lugar das diversas festas que fui, dos aconchegos em casa, da pipoca compartilhada durante um filme romântico no inverno, de uma noite inquieta na casa de algum amigo, eu não teria Bruna ao meu lado, não teria seu corpo quente e disposto sempre a me acompanhar onde eu fosse, ou vice-versa. Agora eu ignoraria, com a atenção voltada apenas para minha nova namorada, a qual me causava só bem e conforto.
Não podia imaginar que estava despedaçando orgulhosamente nossa parceria de doze anos, por motivos egoísticos. Motivos nos quais, o objetivo era causar bem a mim mesmo, que nunca fora feliz o suficiente para me manter.
Mas lá estava eu, de pé à porta do modesto apartamento de Bruna, em plena 22h. Quando se tratava de algo que estragaria tudo, não importava o horário.
Tocara a campainha, esperando por sua silhueta generosamente definida e encantadora; que em pouco tempo, eu esqueceria.
— Oi - pronunciou ela, ao abrir a porta. Sua voz doce e deslumbrante. A diferença ainda permanecia, não era fácil para ela esquecer aquele beijo. Estava de regata preta e um shorts jeans provocante, mas me concentrei para não desfocar do que tinha em mente. Não podia mais me iludir, não seria necessário.
— Precisamos conversar - logo despejei. Enrolar pioraria a situação, a indiferença não adiantaria de nada. E nunca fui bom para encenação.
Apenas ela.
Seu par de sobrancelhas finas elevaram-se, demonstrando espanto.
— Entre - disse.
Subimos ao seu enorme quarto, no qual estive metade dos dias de minha vida. A gata Kate não estava lá, estávamos literalmente sós.
Como sempre eu ansiava em estar, mas não naquele dia. Ela sentou em sua cama, ao menos não ligou a TV; sabia que meu tom era sério demais.
— Acho que já sei do que se trata - disse, enquanto eu me sentava na cadeira da escrivaninha. Não quis ter a proximidade ao seu corpo, por precaução. Sua voz estava monótona, diferente de ontem. Havia uma dor nela, como se realmente já soubesse o que eu iria revelar.
Silenciei.
— Por que você vai fazer isto comigo, Guilherme? - agora seus olhos estavam baixos, fitando suas pernas cruzadas em X sobre a cama. Ela cutucava indiferentemente as unhas curtas, o rosto corando cada vez mais.
Alguém já havia feito minha tarefa. Mas quem?
— Quem te contou sobre isto?
— Não importa - cuspiu, fungando uma vez para conter uma lágrima. Esfregou o olho com a mão, ainda sem olhar para mim. - Sabe... - sua voz não queria sair, eu sentia isso. O par de olhos mais lindos que já tinha visto virava-se para o lado, para baixo - eu lembro cada detalhe de quando pedi a você que me contasse quando isso acontecesse, mas eu acho que não iria adiantar absolutamente nada - duas lágrimas caíram de seu olho, e, pela primeira vez em minha vida, eu não estava ali para secá-las.
Não tive coragem de encostar um dedo nela.
— Não chore - sussurrei, apoiando a cabeça sobre encosto da cadeira, fechando as mãos em punho.
Ela levantou-se subitamente, e começou a andar de um lado para o outro, nunca olhando para mim.
— Chorar? Como não vou chorar? - murmurava com desgosto, tendo ataque de sua hiperatividade. - Eu vou perder meu melhor amigo, a pessoa com quem eu achava que poderia contar a vida inteira sem exceções, e ela vai embora sem eu poder fazer mais nada a respeito.
— Não vou embora - disse com mais clareza - e você poderá contar comigo para o que quiser. Você vai ver que quase nada vai mudar - menti horrivelmente, nem um animal acreditaria em minhas palavras tão absurdas. E ela sabia muito bem disto.
— Nada vai mudar! - gritou, socando a parede ao lado do banheiro. - Nada vai mudar! Eu sei disto, todos sabem, Guilherme! Você vai apenas se afastar como nunca se afastou de mim antes! E eu não posso fazer nada! - repetiu, e eu pude ver o chão se umedecendo com as lágrimas dela.
Novamente, seus gritos arrancaram minha fala. Eu me encolhera ali, preso à cadeira.
— Desculpe - segredei, sabendo que era inútil falar alguma coisa.
— Tudo bem, está desculpado, afinal a idiota sou eu - as palavras saíram num jato, mas sua voz diminuíra o tom - O que eu posso querer mais? As pessoas vão embora, apaixonam-se por outras pessoas, não é culpa delas - e mais lágrimas, inúmeras gotas caíam no carpete branco.
O silêncio tomou conta de todo o quarto, minhas palavras que não queriam sair e a inconformidade de Bruna. Suas mãos cerradas em punho encostaram-se no alto da parede, sua cabeça também. Uma pequena poça formara-se aos seus pés, e então me dei conta.
Recuperei a coragem e o senso do Guilherme antigo, o verdadeiro amigo que existia, e corri até Bruna. Ignorei o que tinha ido fazer ali, já que ela sabia, e todo meu egoísmo idiota.
Abracei-a por trás, e suas lágrimas voaram diretamente para o chão, sendo cobertas por seu choro que agora mais parecia de uma criança. Suas mãos fecharam-se com mais força do que já estavam, mas apertei firmemente seu corpo contra o meu.
— Não vai mudar nada, eu prometo - murmurei contra seu cabelo macio, afundando meu rosto nele. - Vou fazer tudo para não me afastar de você, é sério.
E então, virou seu corpo para me encarar, pela primeira vez. De seus olhos já não mais se enxergava o prata reluzente e magnífico, apenas milhões de riscos vermelhos. E faziam deles, olhos intensamente inchados.
Sequei as novas lágrimas com o dedo.
— É inevitável, é claro que vai mudar tudo, não precisa me iludir - sussurrou. - Eu sei muito bem disto. Tentei me preparar, mas não consegui.
Ela era madura, havia esquecido disto.
— Vou te perder de qualquer forma - continuou, colocando suas mãos fechadas em meu peito, prensando. Enterrou sua cabeça, agora molhando minha camiseta.
— Já lhe disse, não vai. Estou aqui agora. Ainda te amo - disse, sem corar, secando cada lágrima. A coragem ainda tomava conta de mim.
Pela primeira vez ela silenciou, quase cedendo. Não era muito difícil convencê-la, ainda mais quanto a isso. Apertou o abraço à minha vonta, fungando.
— Não vou me acostumar a isto - sussurrou, a voz musical penetrando na minha consciência, consumindo minha coragem. Seu perfume cítrico mordendo meu nariz, provocando minha personalidade de apaixonado-louco-demente por ela. Não. Eu estava decidido, não iria voltar atrás.
Aquilo era apenas físico: repeti para mim mesmo.
— Vai sim - acariciei seus cabelos, enquanto tentava reconfortá-la apenas como um amigo, não como sempre tentei fazer.
Suas mãos empurraram meu corpo, o rosto desviando-se. Por um momento senti medo, mas depois tranqüilizei. Fora para a pia, enxagüou o rosto vária vezes, respirando fundo.
— Quando você vai pedir? - indagou, mais aliviada.
— Sábado - respondeu, hesitante.
Levantou as sobrancelhas.
— Não poderia... esperar?
Ela me pegou de surpresa. O que responderia? "Não posso esperar mais um segundo quanto a você."
Não respondi a pronto, engolindo em seco.
— Não se preocupe - disse, com riso na voz, entendendo o que ela quis dizer - Vou passar amanhã só com você.
E fui para seu corpo frágil, que agora reconfortava-se no meu.



Capítulo 8 - Cinema

— Que droga, Bruna! – gritei ao raro vento de meio-dia, enquanto ela debruçava-se sobre a câmera digital sobre a escadaria. Meus fios de cabelo bagunçavam-se ao relento, e meus olhos comprimiam-se.
— Tudo por uma boa foto – respondeu, piscando o olho brilhante. Depois de ajustar o ângulo, correu até mim e agarrou-me. Fiz uma careta.
A câmera soltou um pequeno ruído de flash. Novamente, correu até o aparelho de cor preta e o fitou. Sorriu. Subi os degraus e tentei ver a foto. Razoável.
A única que salvava sempre era ela. Minha tentativa ridícula de ser cômico era idiota.
Em um movimento rápido e espontâneo, Bruna virou-se para mim e beijou minha bochecha. Pisquei, perplexo.
— Minha casa ou a sua? – perguntou, em um entusiasmo incomum.
O motivo era simples para tanta alegria: Mariana fora viajar, por emergência com a família, ontem à noite. Soube por cima que uma tia passou mal, e teve que ir ajudá-la, junto com sua mãe. Voltaria no sábado. Pedira para uma amiga e eu anotarmos a matéria, e eu estava cumprindo. Dava-me pena ver Bruna ter minha presença apenas para ela: ela realmente mudava de personalidade ao me ter por inteiro. Nunca se acostumaria em dividir-me.
— Sua? – indaguei, sem jeito.
— Pode ser – disse, séria. Depois, abriu um sorriso enorme. Pegou sua mochila à tiracolo e pôs-se a caminhar. Andei ao seu lado, sempre fitando o chão. Uma mania horrível de parecer sempre reflexivo, quando na verdade presto atenção nos ruídos e os pequenos seixos no chão de concreto. Ela, no entanto, acostumara-se com o silêncio proveniente desde que nos conhecemos.
Quatro dias sem ver Mariana. Agora que parecíamos praticamente namorados, quatro dias longe de sua presença iriam trazer de volta o velho Guilherme.
O solitário, depressivo e louco obsessivo por Bruna.
E já estava começando a entrar neste estado, parecia que ao lado dela, Mariana não tinha importância. Claro que ainda pensava em nossas conversas, nosso passar de tempo juntos nas últimas semanas, mas era mais claro ainda que eu não estava encantado com o beijo que tivemos. Com aquele passo em nossa relação.
Almoçamos em um restaurante vegetariano. Em casa, não havia ninguém: Mônica disse que almoçaria no trabalho, Belinda estava de folga e Mike fora ao veterinário.
Enfim, sós.
Bruna logo saltitou até o banheiro, colocando o biquíni. Troquei-me no quarto mesmo, louco para me refrescar.
Logo, meu desejo foi realizado.
— Fico me perguntando, Bru – comecei, pensativo. – O que pensará o pessoal se, por um acaso, eu começasse a namorar Mariana, e você continuasse freqüentando minha casa e vice-versa?
Ela que estava de costas, de repente parou.
— Que você, que antes duvidavam de sua masculinidade, agora seria um galanteador e tanto. Comigo, e com Mariana – murmurou com graça, depois de alguns segundos.
— Ah, fala sério – pedi, reprimindo um sorriso.
— E é. Você terá que dividir seu tempo comigo e com ela, como faz agora.
— Mas e se... até lá, eu fizer mais algumas amizades inseparáveis? – perguntei, agora colocando-a na parede. Não era esse meu objetivo, mas era um modo leve de vingança. Ela tinha que pagar por todo o amor que jogava para mim.
— Você, mais uma vez, teria ainda mais fama de galanteador. Satisfeito? – e riu, sumindo na água cristalina.
Acompanhei seu magnífico nado digno de uma nadadora profissional, contornando toda a piscina.
E num instante, saltou para cima.
— “Até lá”? – repetiu, com aspereza. – Quer dizer que você vai pedi-la mesmo?
Droga. Ela sempre era melhor que eu neste jogo.
— Modo de dizer – consertei – É uma hipótese. Não sei o que vem do futuro.
Silenciou. Não consegui ouvir ao menos o barulho dos carros da rua e da água.
— Você vai me avisar, se acontecer, não vai? – murmurou, como uma atriz experiente, a dor pairando em seus olhos. Nada mais esperado – Bruna fizera teatro desde os três anos.
— Não! – ironizei – Como você é insegura, Bruna! Já disse quantas vezes que será a primeira a saber?
E um jato de água, com risos perfeitamente doces, bateram-se em minha face.
Naquela tarde, Bruna foi embora mais cedo. Disse que teria que decorar falas para sua próxima peça, então assenti.
Mas claramente não era nada daquilo.
O relógio da sala marcava 18h. Perplexo com seu comportamento, passei meia hora embaixo da ducha. A água quente demais para o verão entorpecera meus músculos, queimando toda minha energia.
Exausto pelo esforço que não fiz, deitei-me mais cedo também.
E uma questão martelava minha mente. Eu estava machucando Bruna?
Que erro fatal ter certeza de que eu seria capaz de descobrir, quando isso ocorresse. Mas nem para isto eu era capaz. O melhor amigo com quem ela pode contar não consegue identificar quando ela está magoada.
Era óbvio pelo seu olhar quando referia-me de Mariana; além das outras poucas garotas, que comento.
Obviamente não era a mesma dor de quando ela falava de outros garotos. Mas ainda sim havia um sentimento não positivo. Seu brilho dos olhos todo era dissipado, a prata com safiras virava uma cor fúnebre e horrenda, sólida.
Desta vez não sonhei. Parece que meus pensamentos estavam dando uma pequena trégua, afinal estava cansado de tantos pesadelos significativos. Adormeci tão profundamente, que poderia dormir mais se não houvesse aula.
Um tanto insignificante, uma falta no diário dos professores não faria a mínima diferença.
Eu queria era encarar Bruna no dia seguinte.

“Vai-se a primeira ponto despertada
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em brando e em revoada...
Também dos corações onde abotam,
Os sonhos, um por um, céleres, voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.”


Autor Desconhecido.


— Que lindo, Guilherme. Pode se sentar agora – disse a professora esbelta, com tom materno na voz fina.
Fechei o livro e voltei à minha carteira. Bruna lisonjeou-me enquanto eu guardava o conjunto de folhas na mochila. A aula de literatura nunca mudara de rumo; sempre era ganho pontos a cada poema, frase ou trecho trazido à classe.
O entusiasmante, era óbvio, que não era o fato de levar um poema à aula. Odiava poemas. Fora recomendado por Célia, amiga de Letícia. O que me tirava do sério é que a normalidade de Bruna era sentida até mesmo no ar da classe cheia de pessoas. Bruna, por um lado, com seus sete anos de teatro, poderia disfarçar muito bem seu desconforto com Mariana.
Por outro, ela realmente não estava interessada se ela pudesse interferir em nossa amizade.
Impossível, depois de tudo que aconteceu.
Então era mais provável a primeira opção. E, imagine, não estava sendo orgulhoso. Tinha quase certeza de que ela estava se passando por indiferente; até muito bem.
Não quis tocar no assunto. Se eu estava deixando-a infeliz, fingindo uma ilusão, para que cutucar a ferida?
Como era pedira, há meses, eu ia suturá-la. Dar de mim o que ela precisasse, inclusive minhas últimas forças, se houvesse necessidade. Seria o melhor amigo com quem ela pudesse contar.
Porque eu daria mais importância ao seu bem estar do que meu amor por ela, sem dúvidas.
Refleti durante o resto das aulas, no entanto estava determinado. Não seria pegajoso, tentaria apenas ser eu mesmo. Deixaria que a necessidade dela falasse mais alto, deixando que ela aprenda a dar o valor que quero. Não como um jogo, longe disto. Mais possivelmente uma estratégia sem falsidade: seria seu eterno melhor amigo até o dia em que ela não quisesse mais, ou estivesse pronta para me ter em seus braços.
Intervalo. A fonte de água cristalina e o cardume composto por carpas de diversas cores fora ativada, refrescando a área ao ar livre. Comprei uma soda, e Bruna, como sempre, comprara duas barras de granola. Sentei-me na beirada da fonte ao seu lado, enquanto os outros vinham com seus lanches.
O mesmo ritmo de conversa era praticado, habitualmente. O que mudavam eram os assuntos. Falavam sobre o que fariam depois da aula, logo mudavam de assunto, e o faziam constantemente. Eu, que falava de vez em nunca para dar minha opinião e questionar algo, contemplava a multidão reclamando do permanente calor. E... fitei o lugar no qual Mariana sentava, um banco de madeira clara perto às portas de vidro. Lá, beijavam-se Felipe e Melissa, da quinta série. Fiquei inconformado não pela atitude de Felipe, que diz ser apaixonado por Bruna e estar quase às obscenidades ali, mas sim por sua tentativa de jogar na cara dela de que ele não era tão dependente quanto parecia. Nunca se apaixonou assim por alguma menina, não pelo menos de que eu saiba, e seu histórico não é dos mais limpos. Obviamente, queria atrair Bruna, de um jeito bom ou mau, mas queria atraí-la. Mas essas tentativas falharam, e muito. Bruna sequer virou para fitar o resto do pátio. Seus olhos vagavam da água aos rostos de seus amigos, incluindo os meus.
Com a vergonha alheia pairando em meu rosto, que ardia pesarosamente, desviei o olhar. Continuei a passear com os olhos semicerrados por todo pátio, procurando alguma distração, além de prestar atenção na conversa.
Levantei-me, insatisfeito, enquanto Pedro vinha atrás de mim. Normal para eles, afinal sempre fora o quieto e anti-social da turma, tendo liberdade para sair a hora que quisesse da diária roda de amigos. Atirei a lata de soda vazia na lixeira, e caminhei direto para o banheiro. Pedro, sempre ao meu lado.
— É, vejamos como você se comporta sem sua namoradinha – disse em tom de alívio.
— Tentarei ser o bom e velho Guilherme, se me permitir – ri baixo, enquanto parava diante do mictório. Fiz o que tinha que fazer, enquanto Pedro ajeitava seus cachos no espelho. Molhei minhas mãos e o rosto rispidamente, por pouco não transpirando com as ondas de calor.
— Acho que estou realmente gostando dela – murmurei, enquanto secava as mãos no papel.
— Está brincando – riu, sem graça, com a expressão séria.
— Não estou. Se consegui beijá-la, acho que não significa que ela é igual as outras, não?
Suspirou.
— Minha mocinha está crescendo, consegue se desfocar de Bruna, que lindo – riu, enquanto eu tentava lhe dar um tapa.
— É um desfoque mesmo, nada se compara com o que eu sinto por Bruna. Mas com Mariana aconteceu alguma coisa, não sei.
— Rolou uma química.
— Deve ser – enxuguei minha testa, enquanto saía do banheiro. Andei de volta à roda, tentando entrar no assunto.
As duas últimas aulas foram praticamente livres. Atividades pequenas só, pelas férias estarem próximas. Não havia muito conteúdo a ser passado, e entusiasmei-me enquanto esboçava perto da roda mais agitada da sala. Esbocei exatamente o que via, alguns alunos conversando animadamente. Dei vida às cópias de meus amigos menos íntimos, mostrando o resultado, no final. Acostumado com os elogios e puxa-saquismo, agradeci a todos e preguei o papel ao mural da sala, junto aos tantos outros desenhos sem cor que fiz, somado aos trabalhos exemplares e fotos profissionais dos alunos também. O mural estendia-se por todo perímetro da classe, em três paredes. Apenas não cobria a parede da lousa branca. No começo de cada ano, pedia-se fotos de todos os alunos, de qualquer jeito. Poderia trocá-la quando quisesse. Mais do que isto: cartas, bilhetes, trabalhos e imagens o cobriam. E meus desenhos.
Obviamente a foto de Bruna era a mais divertida e criativa. Seu rosto fino e a pele ligeiramente rosada formavam a sintonia perfeita, reunindo uma careta mostrando os dentes perfeitos e os olhos, mais brilhantes como nunca. Abaixo, sua gata Kate exibia seus gloriosos olhos azul-claro, fitando impressionantemente a câmera. Minha foto era indiferente, dos ombros nus para cima. Meu cabelo estava pouco arrumado, do jeito sempre comum. Um pouco bagunçado, dando contraste ao fundo totalmente claro. Pendia levemente a cabeça para o lado, numa expressão meio divertida, meio misteriosa.
Decidimos ir cada qual para sua casa após a aula. Encontraríamos os outros no cinema, um filme aleatório. Estranhei o fato de combinarem em plena quarta-feira. Logo então, soube que era para tentarem juntar Victor e Letícia. Assenti, indiferente. Os dois se gostavam, precisavam de um empurrão.
Assim como eu também precisava, um grande empurrão.
Almocei apressado. Quase não senti o gosto do espaguete, logo depois indo tomar banho. Vesti uma camiseta e uma bermuda, correndo para a garagem.
Estacionei a bicicleta, indo direto para o cine. A azia fervia meu estômago, enquanto eu segurava minha barriga para não explodir. Cheguei na bilheteria, indo para trás de Victor, assim que o encontrei na fila.
— Por que não escolheram uma sessão mais tarde? – ofeguei, tirando duas notas da carteira.
Paguei duas entradas, e vi que Victor pagara apenas uma.
— Não vai pagar para Letícia? – indaguei, surpreso.
— Deveria? – perguntou, um pouco seco. Mas sabia que estava mais inseguro.
— Óbvio! Eu, que sou apenas amigo de Bruna, vou pagar para ela! – exclamei, com determinação na voz, mas meu rosto ardia. Corava quando mentia, ou quando queria que o sentido do que eu disse fosse o contrário. Afinal, Victor não fazia idéia da dificuldade de considerar Bruna apenas uma amiga.
O garoto dos cabelos negros e olhos azuis pôs-se a pensar, e retirou mais uma nota da carteira.
— Bom garoto – murmurei com riso na voz, enquanto saía para o lado.
Aos poucos, o grupo estava novamente reunido. Todos agora vestiam-se como oito adolescentes influenciados pela modinha, cada um no seu estilo. Bruna encantava-me e arrancava olhares de meninos aleatórios no hall do cinema com sua regata justa, os acessórios habituais como o cordão preto com um gato transparente de pingente e brincos de argolas prata. E a calça jeans que pronunciava suas curvas. Os pares de olhos atrevidos dos meninos percorriam o corpo inteiro de Bruna, parando onde eu temia.
Com a maior intimidade que consegui, atirei meu braço sobre seus ombros, aproximando-a de mim. Não era a primeira vez que fazia isso.
— Obrigada – sussurrou com a voz acalorada, entrelaçando sua pequena mão esquerda na minha.
— Não há de quê – respondi, fitando com desprezo os demais garotos que agora desviavam o olhar. Aquilo divertiu-me de um modo que vocês não fazem idéia.
Entramos no cinema com lotes de sacos de pipoca e refrigerante. Tão fútil quanto prazeroso.
Um filme de ação, com vários tipos de armas e carros inclusos. Recostei-me, pronto para relaxar. Não deram algumas dezenas de segundos, e Paula, que estava ao meu lado direito, sussurrou:
— Não acha que está na hora?
— Vou falar com Pedro – fiz a voz mais baixa que pude.
Procurei por Pedro, que estava ao lado de Bruna. Cutuquei seu braço.
— Quer trocar de lugar? – murmurou Bruna, em uma voz mais audível.
— Shhh – pedi, com o dedo cobrindo a boca, voltando para Pedro – E os dois?
— Vamos falar com Victor – sussurrou, depois virou-se para Bruna. – você, Lílite e Paula falam com Letícia, obviamente.
Mudei de lugar com Bruna, e Lílite, que estava entre Pedro e André, veio para o lado das garotas. Silenciei meus movimentos para não chamar a atenção de Victor ou Letícia, que sentavam na fileira da frente. Chamamos Victor. Não foi preciso que eu desse sugestão alguma, apenas murmurei “Vá em frente!”, enquanto era quase claro os “sussurros altos” do grupo das garotas. Victor pôs-se a pensar novamente, enquanto fitava intensamente os fios lisos de Letícia, enquanto acariciava sua franja, rindo, corando. Algo que era possível notar-se de longe.
— Você gosta dela, não? – incentivou André, o jovem ainda não citado, de pele clara e cabelo oleoso.
— Está na cara – disse, fitando agora o chão. Dava-me pena. Seria impossível que ele amasse Letícia tanto quanto eu amava Bruna, mas ele era mais fraco e mais inseguro. Senti o orgulho subindo até meu cérebro, estampando-se em minha testa.
E então, as garotas pararam. Letícia fitou Victor, depois ambos desviaram o olhar em uma sincronia perfeita. Rimos em deboche.
— Tudo bem, eu vou.
Nosso coro de aclamação juntou-se ao das meninas, provocando irritação às pessoas que queriam assistir ao filme. Ignorei, empurrando Victor para o lado direito, onde os bancos estavam vazios.
— Vai! – murmurei com firmeza.
Letícia logo o seguiu, com a mão em sua face, provavelmente rindo de tanta timidez. Recostei-me novamente no banco, enquanto observava o mais novo casal sentando-se um pouco distante de nós.
Logo depois, percebi que suas bocas encontraram-se. Um envolvera o outro em um doce abraço, bastante desajeitado, porém. Não resisti e gargalhei, comentando da falta de prática de ambos.
Então relaxei.
Pousei meus agitados olhos na tela, onde uma cena monótona rodava. A falta de luz deixava o ambiente tranqüilo e intimidador. Bruna entretia-se com o celular em mãos, e ocupei a maior parte do tempo fitando seus olhos baixos, percorrendo a tela de seu aparelho.
Como eu queria que a cena de Victor e Letícia, ainda aos amassos, repetisse comigo.
Tentei concentrar-me no filme novamente, mas era sem possibilidade alguma. Filmes de ação por mim não deveriam ao menos ser gravados.
Enquanto agarrava mais pipoca, meus olhos encontraram uma turma de jovens barulhentos, que passavam pela porta e agora caminhavam em nossa direção. Gritavam e riam irritantemente, e meu conforto pós-missão cumprida dissipara-se.
O grupo ajeitou-se na fileira lateral, onde as conversas em volume ensurdecedor só aumentara. De nada adiantara as reclamações das demais pessoas, eles apenas curtiram ainda mais o momento.
Em torno de dez pessoas compunham as agitadas fileiras laterais. Fitei meus amigos, cada um, nos olhos, fazendo caretas de desprezo, enquanto tentava relaxar novamente.
Foi então, que os dez adolescentes observaram à sua volta, e comentaram alto, quase a ponto de podermos ouvir.
Dois deles, altos, fortes e que vestiam roupas largas, puseram-se de pé e caminharam em nossa direção. Gelei. Não bastasse que fizessem barulho? Obviamente, pelo meu cérebro já adaptado aos interesses da puberdade, já imaginara o que os dois garotos fariam aqui.
Pararam diante de Bruna, agachados.
— Oi – sussurrou um deles, o mais alto.
Bruna suspirou, irritada, assentindo ao cumprimento. Fitou rapidamente os dois garotos, e colocou-se a mexer novamente no celular, inquieta.
Cerrei meus punhos; estaria pronto para interferir quando Bruna precisasse.
— Então, meu amigo aqui quer conversar com você – disse o mesmo, enquanto apontava ao menino mais baixo, mas ainda maior que eu. Sorriu maliciosamente.
E, então, Bruna virou a cabeça em minha direção. Fitou-me com desespero.
— Eu... estou com ele – murmurou, com incerteza na voz. Hesitou. Gesticulou para mim.
Sorri sem mostrar os dentes, passando o braço por seu ombro.
— Ah, duvido! – exclamou ainda o mesmo garoto, com segurança. Mentíamos tão mal que era vergonhoso. – vocês não estavam abraçados!
— E daí? Estou com ela – afirmei, criando coragem. Queria que logo fossem embora, não suportava pessoas insistentes.
— Então prove! – parecia que o garoto estava ali para me atazanar, enviado de alguém que sabia minha história.
Irritado, virei a cabeça sem pensar.
Toquei de leve a bochecha de Bruna, enquanto avançava sobre ela.
No começo, sua mão tentou empurrar-me, o que provocou risos dos dois garotos.
— Eles não estão juntos coisa nenhuma – finalmente falou o outro garoto. Quis rir de sua voz, daquelas que caracterizam o começo da adolescência. Mas não importara, rocei meus lábios nos de Bruna, teria que aproveitar o momento. Os seus, rígidos e volumosos lábios não retribuíram, mas senti uma palpitação acelerar, vinda de seu peito.
Sua mão forçara contra mim, o que me fez parar. Virei aos dois garotos, que nesse instante estavam ao pé de Paula.
Comecei a rir, sem graça. Pousei a cabeça nas mãos, pensando no que acabara de fazer. Estava pirando, era impossível!
No entanto, não ouvi som algum de Bruna.
— Acha engraçado? – sussurrou a voz fria.
Levantei a cabeça. Bruna olhava-me sem acreditar em meu riso.
— Viu o que eu faço por você? – segredei, enquanto repousava as costas no banco reclinável. Sentia-me satisfeito.
— Não precisava ter feito isso! – ela pareceu irritada. Ignorei.
Incrível como um beijo orgulhava-me tanto.
— Eles te deixaram. Você tinha que me agradecer – falei, enquanto apanhava uma mão de pipoca.
Bruna não respondeu. Repensei no que havia feito.
Realmente, foi um fato que apenas um maluco apaixonado faria. O silêncio permanente cutucou meu orgulho, deixando o clima tenso.
— Obrigada – murmurou, com ingratidão, mas rendendo-se.
Sorri.



Capítulo 7 - Refúgio

O passado já não importa mais.
As contraditórias extravagantes, hipócritas e inúteis foram apagadas.
Os que permaneceram, francos e leais, dominavam meu álbum de recordações.

Seu olhar intrigava-me. Promovia complexos auspiciosos e, ao mesmo tempo, ridiculamente genuínos.
O par de olhos esverdeados, tom de musgo, fitou-me com gratidão, simpatia e se encontravam nervosamente ansiosos. Enquanto um sorriso aberto e involuntário estampava-se em minha face, agora desenvolvida e com pequenos vestígios de pêlos crescendo, outro par de olhos dolorosamente lindos, com o brilho prateado e ingênuo, contemplava-me com desprezo e raiva. “Obrigada, Guilherme, não sei o que faria se você não tivesse passado-me a matéria”, disse a dona do par de olhos verdes. “Não há de que”, sussurrei, com o sorriso ainda permanente em meu rosto.
O par de olhos de cor fúnebre clara, no entanto injustamente sedutor e magnífico desviou-se para a direção contrária, lutando para não acabar nos meus.
— O que há, agora? – indaguei, mas sabia do que se tratava.
— Preciso repetir? – disse Bruna, com rispidez. Às vezes, a beleza resplandecente de seu corpo, somando à de seu rosto não era o suficiente para manter-me longe da Terra.
— Não, porque já sei de cor, picotado e ao contrário – murmurei com sarcasmo. – Apenas não precisa agir assim perto dela. E ainda não me conformo como você consegue ser tão descontrolada.
— Descontrolada? – cuspiu ela, com repulsa. – Não sou obrigada a gostar de ninguém, muito menos dela!
— Ela nada te fez.
— Ela roubou você de mim – sussurrou, levando em sua voz baixíssima, a ingenuidade que eu apreciava, mas não a brincadeira que eu gostava. Parece que nunca falara tão sério.
Forcei uma risada convincente.
— Ainda sou seu – declarei, abrindo outro sorriso, mas diferente. Não tão espontâneo.
Seu corpo agora não era mirrado, pálido e frágil, como há poucos meses. Neste período, Bruna alcançara os seus orgulhosos 1,69 cm, enquanto eu cheguei aos 1,74 cm. Meu aniversário estava perto. O começo da adolescência dera a ela argumentos para vencer em questões físicas. Ganhei também concorrência, pelos inúmeros meninos que se arrastaram a ela em sete meses. Não só nossa estatura, mas como juntamente nossos dons naturais aperfeiçoaram-se. Passei a desenhar em estilo japonês, tocar violão e viciar em jogos de lógica e estratégia. Bruna ganhou facilidade no piano, porém não foi preciso melhorar o que era perfeito: o violão em seus dedos. Ela também exibiu ao público o poder de sua voz na primeira apresentação musical de teatro, impressionando a todos. Mas eu sempre ouvira sua voz em prática na melodia, no entanto ainda não me acostumei.
Abracei-a, tocando meus lábios grossos em sua testa, como era de costume fatal executar.
— Não mais – segredou, com as mãos presas ao fichário preto. – E não é mais um motivo para eu ficar melancólica ou apresentar o começo de TPM, é a mais pura verdade. Basta observar seus gestos quando fica perto de Mariana.
Criei costume de ouvir isto quase toda semana. Revirei meus olhos, fingindo não ouvir enquanto ela balbuciava e apanhava alguns livros em seu armário com superlotação de adesivos:
— Você pode até me ignorar, mas sabe muito bem da verdade. Prometeu daquela vez que ia me avisar quando aparecesse alguém. Não me avisou. As meninas que sempre gostaram de você. Não me avisou. Também tem...
Calei-a enquanto dizia em voz baixa:
— Você fica linda até reclamando.
Ela me bateu com o fichário pesado.
— Ai! – exclamei, enquanto gargalhava.
Sua silhueta perfeita, moldando a regata branca de listras pretas em seus seios volumosos e a calça jeans em suas coxas espessas, caminhara de volta à aula, com a expressão de incompreensão no rosto.
Agarrei seu pulso antes que ela pudesse por os pés na classe, girei seu corpo e o prendi na parede, que agora era muito mais fácil com minha força a mais. Seus lábios separaram-se para protestar, mas acabei enchendo suas bochechas rosadas de calor por beijos. Gostaria de poder selar também seus lábios, mas não foi possível, de novo. Trouxe à tona meu lado sedutor, enquanto roçava meus lábios úmidos em seu rosto, prendendo seus pulsos contra a parede. Não me alterei ao pensar nos alunos que ali passavam, afinal já estariam acostumados com aquela repetitiva cena.
— E agora, mulher? – sussurrei em seu ouvido, enquanto deixava passar os palavrões por ela falados em voz alta e clara.
— Te odeio – gargalhou ela. O riso de cristais se encontrando de leve.
— Vamos entrar.
As aulas, agora, davam de mão beijada o convidativo tédio e a vontade de desenhar cada vez mais. Esboçar tornara-se uma obsessão. Não era de minha vontade aprender a enciclopédia sobre Pitágoras ou coisa parecida. Acho que poderia montar também uma enciclopédia no final do ano, mas apenas de desenhos. Apostei com Pedro que eu poderia comprar cinco livros com o dinheiro gasto com os lápis e papéis.
Enquanto fazíamos as tarefas monótonas e inúteis, Bruna murmurou:
— Ela está te olhando.
Levantei a cabeça em sua direção, depois seguindo a direção de seus olhos. Corei. Mariana sorria intensamente, obrigando-me a sorrir também, enquanto a pele de meu rosto ardia.
— Pelo visto o beijo de ontem deve ter sido muito bom – riu Bruna, mas pude notar uma pequena nota de agonia em sua voz baixa. Depois, processei o que ela dissera. Congelei.
Minha lapiseira escapara da mão, encontrando o chão. Disfarcei meu rosto que ardia mais intensamente, buscando pela lapiseira. Como ela descobrira? Eu não havia contado para ninguém, a não ser para Pedro e Mônica. Jogar sujo para conquistar Bruna seria hipócrita e ridículo. Jogar na cara que eu tinha beijado Mariana ontem, no shopping, não era um comportamento típico de mim.
Mas prometi que iria contar a ela.
Ou não.
Achei a lapiseira, agarrando-a com força, voltando para cima. Respirei fundo.
— Como você sabe disto? – indaguei, voltando a escrever.
— Então é verdade – cortou ela, a voz distante.
— Responda-me, droga – irritei-me.
— Apenas juntei os fatos, Guilherme. Você não estava em casa. Não saíra com Pedro ou Victor. E, de madrugada, Mariana anunciou para quase toda a Internet que fora o dia mais perfeito de sua vida – disse, com aspereza.
— Eu ia te contar – menti.
— Acabou de contar – corrigiu ela, lembrando-me da discussão de sete meses atrás. Fiquei apavorado. Minha caligrafia saiu horrível. — Mas não se preocupe. Conte-me detalhadamente que eu te perdôo – riu ela, alguns segundos depois.
— No final da aula – haviam testemunhas demais. Queria que poucas pessoas soubessem. Retornei minhas mãos no novo rabisco, que ganhava feições organizadas e geométricas. Os doces e curiosos olhos dela passeavam entre o quadro-negro, o professor e meus esboços. Quando o sinal finalmente tocara, Bruna me fez correr porta afora, ao seu lado. Descemos a escadaria até chegar à rua.
— Pode ir contando – disse ela, com um leve divertimento, enquanto ela enterrava suas mãos nos bolsos do jeans. Deixara o fichário no armário, livrando-a de peso. Fiz a mesma coisa, imitando seu movimento.
— Por onde eu começo? – fitei o céu anil com várias nuvens, caminhando lentamente na direção de nosso caminho rotineiro.
— Como marcaram? O que você pensou enquanto se preparava para encontrá-la?
Uma corrente de ar leve balançou alguns fios de meu cabelo, refrescando-me. O calor de verão era intensamente insuportável, então eu optara por regata e bermuda para ser meu novo uniforme. Conforme eu dizia detalhadamente como fora meu domingo, ele todo passou novamente em minha mente, assim como na noite anterior, antes de dormir.

O relógio digital do criado-mudo piscou 14:30h. Repassei toda a conversa que tive com Mariana nos últimos dias. Aproximamo-nos tão repentinamente como da vez em que eu soube que ela era apaixonadamente louca por mim. Conversávamos excessivamente sobre quase tudo. Comecei a dedicar meu tempo para três coisas: desenhos, Bruna e Mariana.
No entanto não havia nada além disto. Ainda preferia a companhia de Bruna, disparadamente.
Mas Mariana... conseguia me fazer tão bem quanto Bruna. O mesmo conforto, talvez. Teoricamente impossível.
Comecei a me arrumar. Tomei uma ducha caprichada. Penteei o cabelo com gel, troquei o adorno do piercing. Selecionei uma camiseta de marca, uma bermuda cáqui e a corrente de prata que Pedro me dera. Os tênis brancos grandes. Relembrei de meu corpo há meses atrás. Realmente, eu havia mudado. Alguns poucos músculos surgiram em meus braços, minha barriga se alisara.
Marcamos para as três e meia. Eu tinha um pouco mais de meia hora de tempo aberto, reservado para refletir. Despedi-me de minha mãe e Mike, pegando o ônibus para o shopping. Não era longe, mas não estava afim de caminhar.
No caminho, pus-me a pensar.
Estaria magoando Bruna? Aparentemente não, pois do mesmo modo de como ela se punha irritada com Mariana, ela voltava ao seu humor bom e risonho, perguntando da mesma. Um comportamento bipolar, talvez?
Consegui assumir há pouco tempo que estava trocando meu tempo com Bruna, deixando-a de lado quase que pela metade. Mariana fazia parte de minha rotina de socialização.
E Bruna, esperava por mim. Não como eu gostaria, mas estava sempre ali.
A silhueta magra aparecera no horizonte do shopping, e enterrei meus pensamentos.
Mariana realmente mudara, não como Bruna e eu, mas totalmente, tanto no físico quanto em mentalidade.
Emagrecera a ponto de a chamarem de anoréxica; hidratara o cabelo, alisando-o. Pintara também de um castanho claro. Passou a usar lentes, a ter roupas mais modernas. Aquilo chamara a atenção da escola toda. Creio também que até Bruna, que antes poderia ser não apenas para mim, mas a mais linda de todas, ganhara uma pequena concorrência. Claro que Mariana nada era comparada à Bruna, mas parecia que esse tipo de competição ocorria todos os dias.
Não queria que fosse visto com ela no shopping central, então combinamos em um quase vazio. Isto porque todos sabiam da paixão de Mariana por mim, e iriam rotular-me apenas porque aceitei “ficar” com ela, com sua mudança drástica. Não era verdade. Obviamente isto influenciou, mas sua mentalidade compunha noventa e nove porcento de minha mudança de pensamento.
Toquei meus lábios em sua bochecha magra, fazendo-a corar. Caminhamos lentamente, com uma certa intimidade, aliviando-me. Pronunciávamos as palavras de forma descontraída e divertida, sempre fazendo piadas. Paguei um sorvete a ela, caminhamos de novo. Ela demonstrou interesse ao passar em uma loja com aparelhos eletrônicos, então observamos atentamente os produtos. Andamos por vários corredores cercados das mais diversas lojas, enfim chegamos ao maior deles, com a parede lateral e a do final de vidro. Extremamente possível enxergar tudo o que se passava do outro lado do shopping, inclusive a paisagem que emanava o fundo, composto por uma enorme floresta de pinheiros e alguns morros. Apesar da paisagem tipicamente gélida, eu sabia que lá fora o calor era quase mortal.
Mariana passou a mão em minha cintura, largando seu braço ao redor.
— Amo esta paisagem. Toda vez que venho, fico horas admirando-a.
— Vim poucas vezes aqui, e também adoro – era verdade. Um refúgio pouco freqüentado, infelizmente. Paisagem calma, confortante.
No instante, para realizar meu inferno emocional, Bruna retornou à minha mente. Merda, estava ótimo sem ela me perturbar daquele jeito. Eu estaria fazendo a coisa certa? Já não havia decidido que não perderia as oportunidades que aparecessem, mas esperaria eternamente por ela?
Mariana me fazia feliz. É certo, não tão como Bruna, uma coisa indiscutível. Porém ela era meu outro tipo de conforto, um talvez que envolvesse apenas a mais pura amizade. Como um prazer de viajar com os melhores amigos, ou acordar em uma manhã ensolarada, em algum sítio com piscina, lotado de amigos. Ela causava a agradável sensação de eu ter milhões de amigos sinceros.
Por que não, então, tentar? Não me custava. “Aproveite”, sussurrei mentalmente para mim mesmo.
Fitei o rosto de Mariana, agora tombado em meu ombro. Seus olhos de esmeralda brilhavam intensamente, um verde líquido, ofuscante. Eles encontraram os meus, cinzas claro. Pelos olhos, poderiam me confundir como irmão de Bruna. Mas sempre duvidei que os meus tivessem o mesmo brilho que os dela. Apenas tinham traços ondulares que variavam de cinza escuro à cinza claro. Este par inutilmente expressivo, obrigara minha boca se contrair em um enorme sorriso. Mariana o retribuiu, com seus lábios cheios e avermelhados se esticando. Ela observou o contorno de meus lábios, que murchou o sorriso enquanto meu rosto ardia de calor.
Puxei sua cintura para a minha, e toquei seus lábios com os meus.
No começo, as emoções chegavam uma a uma, porém tão rapidamente que tremi meu corpo. Mariana o apertou forte, para mantê-lo ali. Eu não tinha a intenção de fugir. Tinha o propósito de permanecer, até que alguma parte de meu corpo se sentisse totalmente preso à Mariana, como meu corpo inteiro sentia-se prisioneiro perpétuo de Bruna. Ao menos, então, haveria uma chance de competição. Mas nem isso.
Lutei para que minhas mãos encostassem em seu corpo. Acariciei então, seu rosto, roçando os lábios nos seus. A outra mão apertou sua cintura, enquanto ela entregava-se como ninguém, a mim. Forçou sua própria língua invadir minha boca, coisa que tive muito receio para que acontecesse. Então, enxerguei apenas um modo de poder fazer Mariana feliz por um momento, aproveitando a situação. Por mais ridícula e contraditória que fosse a idéia, daria certo.
Mentalizei Bruna novamente. Seu corpo. Seus lábios. Seu jeito. O modo como entregava-se. Aos poucos, relaxei e estava com Bruna totalmente em mente, meus olhos cerrados.
Lentamente, fui enfraquecendo o beijo. Um sorriso final nos dois rostos me satisfez.
— Te amo, Guilherme – murmurou ela.
Não pude responder; só responderia se fosse para retribuir. Para que mentir? Mortifiquei o sorriso, reduzindo-o para uma elevação do canto da boca.
— É, não precisa responder – continuou, fitando agora o vazio. Ela conhecia muito bem meus sentimentos.
Toquei seus doces lábios novamente, finalizando.

Ao terminar de contar, mais surpreendente foi a reação de Bruna.
— Hmmm – emocionou-me ela, com seu comentário mais do que produtivo.
— Argh, Bruna. Conto que beijei uma menina e você fala isto?
Nenhum ruído.
— Você gostou? – indagou ela, fria e distraída.
Sua voz intrigante fisgou-me. Eu havia mesmo gostado?
Obviamente, tão obvio até para uma criança, que não se comparou nada com aquele único beijo que realizou minha vida no aniversário de Marília. Mas... Mariana me dera o aconchego e a sensação boa que Bruna nunca estava disposta a dar. Bruna nunca se entregara como ela. No entanto, isto importava?
— De certo modo – falei a verdade, enquanto abria a porta de casa. Bruna esperou todo aquele ritual diário de cumprimentar quem estivesse em casa, deixar a mochila em meu quarto e se trocar para continuar a falar. Poderia pensar o tempo que fosse para falar.
Neste verão, revezamos que um dia iríamos para casa dela, outro dia na minha. Com o calor insuportável, passamos a tarde inteira na piscina. Meus olhos se satisfaziam, afinal eu poderia vê-la de biquíni todos os dias. Ridiculamente fútil, porque não me interessava seu corpo tanto quanto sua personalidade. No entanto, é comum da puberdade sentir mais atração do que qualquer coisa. Poderia valer para mim, mas estava permanentemente certo de que queria ter seu coração, não seu corpo.
Bruna, então, não disse nada mais sobre Mariana. Incrivelmente irônico. Há meses, desejei que ela sequer pensasse em Mariana. Agora, gostaria que Bruna comentasse um pouco mais dela. Talvez, por puro desejo de que ela sentisse ciúmes, ou se preocupasse comigo. Mas nem isto.
Um espirro de água levemente fresca cortou meus pensamentos.
— Vamos chamar Lílite, Pedro, Paula, sei lá. Há uma semana que não nadamos com eles – disse Bruna, com os cabelos úmidos para trás, exibindo seus seios em um biquíni branco estampado.
Liguei para nosso grupo. Particularmente, apenas faltava um nome para nós, e poderíamos montar até uma banda. Mas ninguém realmente quer preocupações, e não são todos que tocam ou cantam. Poderíamos fazer isto pelo simples fato de sempre sermos os mesmos: os oito adolescentes inseparáveis.
Uma pequena festa em plena segunda-feira.
Sempre preferi deixar as festas para os fins-de-semana. Por mim, passaria todos os dias do verão escaldante competindo o nado mais veloz, admirando o modo como ela, Bruna, cochilava, apanhando sol. Eu sempre a assistia, do lado de dentro, na piscina. Ela adormecia sob o sol lá fora, junto ao jardim. Dividindo as bebidas inventadas pela boa e paciente Mônica, que muitas vezes chegava exausta pela noite, querendo um refresco junto a nós.
Mônica estava exercendo sua função lealmente, enquanto avaliava com a atenção natural das mulheres os diversos casos daqui, Verone City. Nenhum homicídio, apenas pequenos furtos e roubos. Obviamente, Verone City era boa demais para ocorrer crimes como estes. Voltava exausta, pois muitas vezes tinha que ir à própria residência do culpado. Isso consumia paciência e compreensão de sua parte, mas nada impedia que ela voltasse amistosa e feliz. Encontrar seu filho e sua futura namorada mais seus melhores amigos reunidos num coro de risada na piscina de casa, para ela não era ruim. Pelo contrário.
E eu creio que nenhuma mãe chega a ficar tão encantada como a minha, quando se vê uma cena desta. Não é por acaso que eu a chamo pelo nome, Mônica. Como se fosse uma amiga, a melhor de todas. Talvez uma irmã a qual não se briga jamais. Não uma mãe.
Boa demais para ser mãe.
Como se era esperado, Mônica chegou, exausta e transbordando de alegria ao ver meus amigos e eu, mergulhados na piscina coberta de casa. Imediatamente, preparou oito copos de suco de abacaxi com pêra, entregando-nos sem cerimônia. Quis juntar-se à festa, mas preferiu tomar banho e cair inconsciente na cama. Assenti.
Nossas férias estavam se aproximando. Viajar ainda não estava em nosso roteiro. Não seria enjoativo muito menos incômodo para mim passar todos os dias como se fossem normais, com aula. A tarde toda na piscina, a pele escurecendo de tanto sol, desde que seja ao lado de amigos, e em especial, de Bruna.
Mariana não fazia parte de minhas férias. Nunca fora, por que seria agora?
Não perturbaria a ela passar um mês sem me ver. Não perturbaria a mim.
— Não se esqueça que ela ama você – sobressaltou Pedro, depois de eu ter lhe dito meus pensamentos em voz baixa. Sua voz sublinhou a palavra ama.
Pensei melhor.
— Se ela pudesse, pediria você em namoro – completou ele, sugestivamente, enquanto brincava com a água.
— Eu não aceitaria – respondi de imediato.
— Como pode saber? Você mesmo disse que não é a mesma coisa em relação à Bruna – murmurou ele – É óbvio que não. Mas ela serve como conforto, como um pequeno refúgio. Por enquanto.
— Não quero iludi-la. Já praticamente joguei sujo, por ter beijado Mariana.
Ele me encarou feio.
— Você diz que não quer iludi-la e fala que a beijou para jogar sujo com Bruna? – sua voz subiu um tom. Joguei água em sua cara, fazendo-o rir.
— Por esse e outros motivos – completei.
— Não te entendo. Definitivamente não.
— Nem eu entendo você e Lílite – ri sarcasticamente, relembrando de todo seu histórico com a ruiva cacheada. Lílite gostava de Pedro não como amigo apenas. Disse à Bruna que “ficaria” com ele. Prometi guardar o segredo, mas sempre joguei indiretas. Para provocá-lo, afinal Pedro percebera isto da própria ruiva. Ele, confuso e cômico como era, já a beijara antes. Mas não gostava.
Ironia do destino.
— Não é necessário entender. Ela gosta de mim. Mas não correspondo. Beijei-a por carência. Simples, não? – irritou-se. Não era bom em expressar sentimentos como aquele, ao menos para mim.
E, realmente, meu caso era mais complicado. Eu simplesmente não avançava um passo com Bruna por medo de estragar tudo construído até agora.
A ferida que eu poderia causar tinha pouca chance de cura. Isso provocaria muito mais dor em mim do que nas duas semanas em que brigamos, há meses. Porque, de fato, a ferida iria durar muito mais do que duas semanas para se curar.
Talvez anos.
Estremeci com a idéia, mergulhando fundo na água. Era um bom modo de entorpecer-me. Embaixo dela, não me preocupava com os problemas. Prendi a respiração e rodei pela piscina, inúmeras vezes.


Capítulo 6 - Reconciliação


Então, novamente eu brigara com Bruna.
Tecnicamente, não fui eu que começara. Apenas fiquei perplexo com aquela pergunta e sua explicação.
O nó em minha garganta começou a me engasgar, deixando-me sem ar. A agonia presente na hora crescera conforme eu fechava a porta de meu quarto depois que ela saiu.
Lutei contra todas as lágrimas de meu lado ridículo, insuportável e sensível demais, e consegui me controlar. Respirei muito fundo por alguns minutos, e consegui manter a calma. Parcialmente.
Mônica não ousou me incomodar, ouvindo a briga quase de camarote. Ouvi seus passos hesitantes próximos a porta, no silêncio da noite. Mike dormia ainda tranqüilamente, sem se alterar no meio da discussão, mexendo-se apenas uma vez. Menos mal, se ele tivesse acordado para me aconselhar novamente como fiz na semana passada, eu teria liberado todas as lágrimas. E daria liberdade para meu lado que eu detestava amargamente.
Liguei o computador. Estava rápido, não dando tempo para eu pensar novamente no assunto. Abri minha página pessoal, vários recados. Nenhum tirava minha atenção do tédio.
O tédio que dominava minha mente durante meu tentar de afastar os pensamentos ruins. O tédio era mil vezes mais deprimente que a agonia, mas eu não estava com a mínima vontade de lacrimejar. Ainda mais por motivos escrupulosos como aquele.
Abri a pasta de músicas. Passei o cursor por alguns arquivos, ajustei o botão de volume do som de alta qualidade para baixo. Abri uma página qualquer da Internet, procurando vagarosamente o que fazer.
Não. Não seria o suficiente.
Eu sabia que se repousasse meu corpo na cama ao lado, seria inútil e só favoreceria o que eu estava tentando evitar. Para tentar apagar, eu pensaria seriamente na situação que havia acabado de acontecer. Ajudaria a fazer com que água salgada saísse de meus olhos.
Desci as escadas. Concentrei-me nos degraus, fitando minuciosamente as bordas clareadas, fugindo do tom padrão, marrom carvalho.
Corri para a despensa, passando o dedo pela parede lisa. Concentrei-me totalmente em todos os meus gestos, fitando as partes do meu corpo. Na despensa, procurei pela estante de remédios. Uma embalagem de faixa vermelha chamou minha atenção, com um nome indecifrável. Abaixo, ‘antidepressivo’. Apanhei-o, abrindo o pacote.
Não li o rótulo. Muito menos a bula. Não seria necessário.
Engoli dois pequenos comprimidos brancos e redondos, tendo em mente: “Isso é para meu próprio bem. Pode ser que eu esteja agindo do mesmo modo que meu lado ridículo agiria, mas pelo menos, nenhuma gota caiu de meus olhos.”
Voltei ao meu quarto, batendo os olhos em dois minúsculos ursos de pelúcia, de mãos dadas, em cima da escrivaninha. “Simboliza nossa amizade” pude ouvir a voz doce e intrigante que eu queria excluir de minha mente. Caminhei até os bichos e os atirei para debaixo da mesa.
Retornei para minha cama, de edredom escuro e lençol sombrio. As luzes se dissipavam em minha mente, como se alguma criatura invisível estivesse tirando a cor de cada objeto. Fechei os olhos, sem muito lutar, concentrado apenas em ficar desacordado.


Seus olhos me encontraram de novo, fazendo o sangue subir para meu rosto. Corei vergonhosamente. O par de olhos cinza-claros com pequenos traços azuis, sem vida e humor, fitou o chão da sala de aula e voltou-se para o professor alto e cômico.
Peguei a caneta de tinta negra e rabisquei espirais por uma folha de papel qualquer.
Quando o sinal familiar e irritante soou pelo corredor grande e amplo do colégio, corri para fora sem olhar para trás. Papéis brancos como neve e lápis de ponta fina esperavam por mim na escrivaninha preta de meu quarto, para serem usados.
Até duas semanas atrás, eu sabia que meu dom mais forte eram os desenhos. Depois que parei de falar... com ela, os rabiscos aperfeiçoados que saíam em constante criatividade de minhas mãos, tornaram-se meu principal passatempo durante todos os dias.
Uma nova rotina se formara.
No colégio, eu atirava toda a minha atenção em quaisquer aula, fosse ela química ou francês. Passava o intervalo sozinho, na sala de aula, jogado dentre os papéis de rascunho, lotados de caricaturas de todas as coisas imagináveis. Mas nada que relacionasse à Bruna. Meus amigos, ou aqueles que eu poderia chamá-los de amigos, tentaram me reanimar nos dois primeiros dias. Depois, cessaram do desespero cada qual a seus costumes.
Pedro foi o único que sofria junto comigo. Não ousou aconselhar-me de que eu devia pedir a ela meu profundo e sincero perdão, mas seus olhos sempre viravam-se contra os meus querendo dizer o que eu temia. E meu orgulho dominava e feria.
E o que mais sangrava nisto tudo, é que ela pedira a mim para ajudar a lhe suturar, quando eu fosse embora, pelo menor tempo que fosse.
Uma situação insignificante e amena, para quem acompanhasse de longe. Paula, Letícia e Victor, por exemplo, não entendiam o vínculo forte que eu possuía com Bruna. Logicamente, nosso grupo casual era extremamente interligado, como uma gangue. Repartíamos segredos, conversas, nada era escondido. Sete pré-adolescentes que tinham conhecimento de todos os meus podres, todas as minhas dificuldades como de vantagens e qualidades. Menos uma, apenas uma. Pedro não se encaixava nela. Pedro e seus cachos quase oliva, alto, monstruoso e ridiculamente palhaço. A expressão de dor ao entrar na sala de aula e me encontrar de cabeça baixa, riscando o papel branco, era estranha em seu rosto oval e comprido. Todos os quatorze dias, ele voltava mais cedo do intervalo para olhar meus desenhos. Nada que o chamasse atenção. Neles, incluíam-se pequenas folhas, flocos de neve, raios de sol que atravessavam nuvens esburacadas, rosas negras. Gotas de água detalhadas, pingos espalhados em um pedaço de calçada.
Cheguei em casa, habitualmente cumprimentando minha mãe e a empregada Belinda de forma tediosa e exausta. Deixei meu casaco de final de inverno em cima da poltrona, coisa que as duas odiavam. Subi as escadas de dois em dois, atirando-me na cama fria e macia que encontrei no canto de meu quarto. Coloquei as mãos sobre o rosto, tampando o que eu não queria ver. Porém, a escuridão só me possibilitou de enxergar mais do que eu devia.
Minha consciência finalmente lutava contra o egoísmo e o orgulho nato que dominara os quatorze dias. Se Bruna não quisesse se desculpar, eu não poderia fazer nada.
E eu sabia que não era ela quem tinha que se desculpar.
Afoguei todo esse pensamento contraditório nas águas profundas da insanidade, e entrei em inconsciência.
O pior pesadelo que tive na vida estava acontecendo. E no sentido literário.
Bruna estava distante de mim, porém na mesma posição. De pé, linda, exuberante, reluzente. Tentei me aproximar dela, mas os passos eram em vão. A cada movimento meu, ela se afastava, com a expressão que nunca vira nos inacreditavelmente doze anos que a conhecia. A de ódio mortal.
— Bruna - chamei, ao murmúrio.
Ela não respondeu.
Corri em sua direção. Ela fugiu mais uma vez de minha presença, correndo mais rápido que eu, incansavelmente, misticamente sem se cansar. Debrucei-me sobre os joelhos, ofegante. Era um sonho, como não pude distinguir?
Então, ela parou ao lado de uma silhueta incomparavelmente menos perfeita que a dela. Quando me aproximei, aos passos pesados, a silhueta defeituosa virou-se para me encarar.
— Não sou eu quem te quero - sussurrou a voz doce e fria.
A silhueta reconhecível agora, idêntica a de Mariana, caminhou em minha direção, enquanto a imagem de quem eu queria dissipava-se. “Bruna!” gritei, mas foi inútil. Andei na direção oposta à Mariana, parando quando Bruna sumiu totalmente. Ajoelhei, perplexo. Mariana retornou, agarrando minha mão e ajoelhando-se também, passando a outra mão sobre meus cabelos.
Levantei-me rapidamente demais para continuar estável. Ofeguei desesperadamente, enxergando apenas a escuridão.
Havia acordado. As luzes aos poucos foram se encaixando, dando coesão ao ambiente. Pela janela, enxerguei o cinza claro pairando no céu, formando uma grossa camada de nuvens. Senti-me claustrofóbico. Próxima de mim, Mônica alertava-se, ajoelhando ao meu lado da cama, no chão.
— Filho, você está bem? - sua voz era urgente.
Não encontrei minha voz para respondê-la.
— Fale comigo, Guilherme. Responda.
No mesmo instante em que procurei em vão por minha voz, ela correu do quarto, também fugindo. Aquilo me assustou ainda mais. Não senti meu corpo, fitando a porta. Mônica atravessou ela novamente, com um copo de água em mãos.
— Tome.
Agarrei o copo, com as mãos tremendo. Engoli o líquido, pesado demais para mim, sem pensar. Quando acabei, Mônica abraçou-me, favorecendo minhas lágrimas.
Não.
Empurrei seu corpo com força, mas não quis ser rude demais. Corri para o banheiro, debruçando-me sobre a privada. Tossi ferozmente, enquanto a dor arranhava minha garganta, meu estômago e meu peito.
Senti as mãos quentes demais encostarem em meus ombros, esfregando-se suavemente. Não parei de por pra fora tudo rejeitado pelo meu intestino, consumindo cada resto de força.
Quando consegui respirar, arrastei-me até a pia e enxagüei a boca. Tomei outro copo de água, e sentei em minha cama.
— Bruna te ligou - disse minha mãe, com os olhos carinhosos e cautelosos.
Tentei parecer indiferente.
— Prossiga.
— Ela queria falar com você, eu apenas disse que estava dormindo. A voz dela ficou diferente depois que eu lhe informei, acho que ela conhece seus hábitos. Você não dorme à tarde.
Não respondi novamente.
— Melhor? - perguntou.
— Sim.
— Chega de dormir? Ligue para Bruna. Fale com ela, por favor.
Mônica suplicara todos os dias da primeira semana para eu voltar a falar com Bruna. Inutilmente. Meu orgulho ainda feria.
— Depois - eu respondi, por fim, indo para o banheiro novamente, só que mais calmo.
A água do chuveiro acalmou meu estômago, e pôs em prática meus pensamentos. Organizou-os de forma abrangente, favorável. Mas não estava pronto para pedir desculpas. Iria deixar que o tempo resolvesse, se é que eu poderia ser capaz de ficar mais um dia sequer longe dela.
Vesti às pressas as roupas quentes, com medo do que viria a seguir. Eu ligaria, ou não? Talvez não parecesse ignorante e orgulhoso de minha parte se a retornasse, por mais egocêntrico que eu estivesse.
Apanhei o aparelho prata e disquei seu número. Na segunda chamada, ela atendeu.
— Guilherme – ela disse, em um pequeno entusiasmo. Nada que a desmoronasse.
— Por que ligou? – minha voz era surpreendentemente asquerosa.
— Queria saber se posso aparecer aí, amanhã.
Paralisei.
— Para quê?
— Posso ir?
Seria inútil começar uma discussão, então assenti.
— A que horas? – ela cortou meus pensamentos.
— A de sempre – murmurei, por fim.
Ouvi um silêncio incomum.
— Alô?
Nada. Ela desligara. Ela tinha menos coragem do que eu.
Não pediria desculpas facilmente. Então, o que ela faria aqui?
Apertei o botão End e joguei o telefone longe.

A claridade solar cobria inutilmente toda a neve, dando à manhã um tom mais alegre. Estremeci, sabendo que ela viria naquela tarde. Fui até a varanda de meu quarto, fitando o dia claro e coberto de branco à minha volta. A paisagem vista de meu quarto era inspirante, talvez ela me desse coragem.
O relógio do criado-mudo apitara 10:00h. Olhei-o, inexpressivamente. Mantive as mãos fechadas em punho dentro dos bolsos do casaco branco de moletom. Observei o céu limpo, nenhuma massa branca sobre mim. Assoprei, e o hálito quente produziu uma pequena fumaça branca, que dissipou depois de um segundo.
Percebi, ao olhar sugestivamente para a escrivaninha, que os dois ursos de pelúcia ordinários estavam em seu lugar de origem. Maldita seja Belinda. Queria pedir à minha mãe que deixasse Belinda sem seu salário por um mês.
Mike viera até mim, parando para se sentar ao meu lado. Passei a mão sobre sua cabeça, fazendo seu rabo longo e grosso se agitar um pouco depressa. Ele deitou, e sentei para acompanhar suas costas peluda com a mão. Não, o chão estava frio demais. Levantei-me, voltando para o quarto. Peguei uma folha branca na estante, uma prancheta e meus lápis próprios para desenho e arrastei o tapete quente e espesso para o chão da varanda. Sentei-me, e comecei a esboçar.
Pude ouvir a campainha. Não era capaz de ver quem era da cerca da varanda, então pouco me importei, continuando sentado. Não poderia ser Bruna, afinal ela chegaria às duas horas. Talvez fosse o correio.
Subitamente, Mike saiu de seu descanso e saiu pela porta do quarto. Estranho para mim, ele nunca sairia de meu quarto quente para latir para o carteiro. Voltei a concentração toda para meus esboços, agora já formados. Um céu limpo. Prédios altos, cobertos de neve. Telhados aparentes macios com suas respectivas camadas brancas. Comecei a formar suas sombras habilidosamente.
— Guilherme – murmurou uma voz feminina.
Meus dedos soltaram involuntariamente os lápis, que rolaram pelo chão, parando na cerca. Virei minha cabeça na direção da voz, em choque.
A silhueta que eu temia ver até as duas da tarde me encarava, inexpressiva. Os olhos, muito longe para minha avaliação, aparentavam os mesmos daqueles quatorze dias. Ela parara no batente da porta, com as mãos juntas, próximas ao rosto. A posição que me chamava para acolhê-la, abraçá-la para protegê-la.
Levantei, largando a prancheta. Ela correu para meu corpo imóvel e duro, agarrando-o pelo pescoço e as costas. Enterrou o rosto lívido pelo frio constante em meu peito, acabando-se em lágrimas.
— Desculpe-me, perdoe-me! – implorou ela – Você não é obrigado a me contar nada, a vida é sua e você pode fazer o que você quiser! Perdoe-me, por favor!
Não mexi um músculo.
— Quem tem que pedir desculpas sou eu – sussurrei, porém.
— Por quê? Fui eu a idiota, quem devia ter suplicado por perdão no mesmo dia em que brigamos. Não posso viver sem você, por mais medíocre que seja para isto. Apenas me perdoe – as palavras saíam velozes de sua boca, mas todas formavam um único sentido.
Afrouxei meus braços do lado de meu corpo e envolvi sua cintura firmemente. Deixei escapar duas lágrimas.
— Insisto: sou eu que tenho que lhe pedir perdão, Bruna – murmurei, afundando meu rosto em seu cabelo macio – fui estúpido em expulsá-la daqui, ainda usar o sarcasmo, por favor me perdoe.
Ela levantou a cabeça, fitando-me com os olhos vermelhos e úmidos, mas divertidos.
— Só se você me perdoar.
— Eu te perdôo.
— Eu também.
Toquei os lábios em sua testa, depois ela tocou os dela em minha bochecha, envolvendo-nos novamente no abraço sufocante.
— Nunca mais farei isto de novo.
— Nem eu – eu disse, com sinceridade. – não sabe como foi torturante ficar longe de você, encará-la no colégio dia após dia.
— Foi mais torturante ainda para mim, que pensei todos os dias o porquê de eu ter tentado fazer você prometer uma coisa banal. Mas... foi com sinceridade. Não estou pronta para ficar longe de você.
— Também não. E nunca mais vou agir assim.
Seu rosto abriu um sorriso, um convite tentador para meus lábios. Retribui o sorriso, beijando novamente sua testa.
— Te amo – murmurei, lutando para não corar. Deu certo, e seu sorriso permaneceu.
Ela fitou a prancheta largada no chão.
— Por que veio mais cedo? – questionei, agradecendo por isso.
— Não agüentaria até às duas, e eu sabia que você estaria acordado.
Levantei as sobrancelhas, surpreso.
— O que fez durante minha ausência egoísta, Guilherme? – ela perguntou, divertida, com a prancheta em mãos, batendo um dedo para indicá-la.
— Desenhei. Uma estimativa de cinco folhas por dia.
— Uau – exclamou, elevando as sobrancelhas por um segundo.
Levei-a para dentro, mostrando a pasta cinza em cima da escrivaninha. Ela abriu, avaliando cuidadosamente cada desenho.
— Sabe o que eu fiz durante esses dias? – questionou, virando a todo tempo para me olhar, como se eu cintilasse ao clarão de seus olhos magníficos.
Não tive a mínima idéia. Ela poderia ter feito tudo o que uma garota rica e com uma grande lista de amigos – ainda que verdadeiros – poderia fazer, longe de um amigo chato e infantil.
— Chorei – completou ela, risonha – compus músicas no piano e dormi.
Gargalhei.
— Dormiu? Sabe – peguei suas mãos, livrando-as dos papéis e a fiz sentar em minha cama – acho que faz umas duas semanas de que durmo às duas e acordo às seis horas.
— Hmmm. Isto explica o porquê disto – sussurrou ela, em um timbre doce, acariciando com os dedos minhas profundas olheiras novas.
Houve um breve silêncio; quase pude ouvir seus pensamentos, acompanhando seus olhos vagarem de minhas manchas arroxeadas aos meus olhos.
— Foi difícil – assinalei, observando sua reação. Seu rosto se transformou em uma face angelical de dor, ameaçando sufocar-se em lágrimas novamente.
Envolvi meus braços à sua volta, relembrando cenas mais familiares.
— Está tudo bem agora – afaguei suas bochechas vermelhas e geladas. – Bruna, você não tem noção da temperatura de seu corpo?
— Não quando estou com você – admitiu. Enquanto meu coração tentava se recuperar do derretimento repentino que aquela maldita garota por quem ele se apaixonara causara, Bruna buscava os desenhos e enrolava-se no meu cobertor pesado.
O que era mais odioso é que ela não corava ao dizer aquilo, enquanto eu sentia a pele de meu rosto arder de calor.
Caminhei até a varanda, recolhendo os lápis. Fechei um lado da porta de vidro, pegando a prancheta e indo aninhar-me ao lado de meu amor.
Liguei o som e deixei na rádio habitual que ouvíamos. Comecei a traçar em uma nova folha, feições humanas.
Enquanto ela folheava, distraída, eu colocava em prática minhas novas inspirações por ela criadas.



Agora, os dois pequenos ursos pareciam dois diamantes cintilantes.